23/01/2019
Madrugada sem solidão

 

 

Numa dessas noites sem solidão estive me lembrando do livro “A revolução dos bichos”, escrito por George Orwell (1903-1950). Isso, me fez lembrar que quando ainda garoto eu ouvia dizer que todas as criaturas eram filhas de Deus. Lembrei-me também do Lulu, um cachorrinho preto e branco que me acompanhava por todos os lugares por aonde eu ia, lá naquele lugarzinho (Caieiras) donde nasci. Lembrando daqueles tempos, faz muito tempo que o Lulu morreu... Talvez até já tenha reencarnado. Naqueles tempos as noites eram silenciosas e os cachorros quase não latiam. Às vezes se ouvia algum a uivar. Diziam que era um aviso sobre alguém que ia morrer ou já morreu. Quando ventava muito tempo sem parar era porque algum padre havia morrido. As pessoas eram mais sábias.

Nesta época mais apaixonada por cachorros, não mais se sente solidão pelas madrugadas, pois, eles unidos com seus latidos espantam qualquer pensamento de desagrado ou de tristeza que os “querendo pegar no sono e não conseguem” possam ter. Ainda bem que os cachorros existem, porque, eles destroem o silêncio e isso é bom. O silêncio é horrível. Ele traz lembranças do passado que podem ser torturantes. Eu odeio o silêncio porque ele atrapalha as minhas meditações noturnas. O silêncio não é bom porque é na “calada da noite” que falcatruas são desenvolvidas por políticos desonestos. Quando os cachorros não latem, eu não consigo meditar. Assim que eles começam ou retornam a latir, obtenho sucesso nas minhas meditações. Agora para me iniciar nelas, antes recito um mantra muito poderoso: Au, au, au, au, au, au.

Nunca tive desejos de aprender outras línguas, mas, gostaria muito de aprender a falar e a entender a língua dos cachorros. Eu até poderia me encontrar com um cachorro filósofo para aprender muita coisa com ele, já que, com os homens nada mais se tem para aprender, a não ser sobre suas cachorradas. Ainda bem que hoje existem cemitérios e até hotéis para cachorros, eles merecem. O sindicato dos cachorros está pleiteando um adicional noturno para eles. Depois, talvez, pleiteiem férias também. Como eles vivem entre os homens, é inevitável que os cachorros aprendam a ser democráticos, comunistas, ditadores, e é por isso que eles brigam sempre.

Outro dia, de dia quando os cachorros ficam descansando depois de suas jornadas noturnas, ao passar pela casa de uma das minhas vizinhas eu a vi chorando. Perguntei o porquê do choro e ela me disse que o seu velho cachorro de tão velho que era havia morrido. Dei-lhe os meus pêsames e para consolá-la disse-lhe que o cachorro dela que foi para o céu dos cachorros devia estar bem. Mas, não era bom pra ele ela ficar triste e chorar por ele, porque, isso só poderia prejudicá-lo.

Eureka! Descobri porque mais ninguém vê e fala de ter visto fantasmas à noite, aqueles espíritos errantes que ficavam a assustar os vivos. Antigamente as histórias sobre fantasmas, das almas do outro mundo eram comuns. Mas, agora, com tanto cachorro latindo nas madrugadas, até os fantasmas têm deixado de aterrorizar os seres humanos. Mais uma prova de que os cachorros são os melhores amigos dos homens. Ah, esses homens maravilhosos com os seus cachorros latidores... Ou vice-versa (risos).

Altino Olympio



Leia outras matérias desta seção
 » O povo sempre é e sempre será o povo
 » O inevitável incômodo da vida
 » O se desconhecer
 » O desamparo nunca é citado
 » Profissões supérfluas rendem mais
 » Brasil a deriva
 » Somos todos irmãos, mas, nem tanto assim
 » Poluição mental
 » O Psiquiatra esquartejador
 » “Formigação” indesejável
 » Somos prisioneiros do tempo
 » O império da sexualidade
 » Rio assassinado e garoto acidentado
 » O universo mental de cada um 
 » O homem que lê vale mais?
 » Futuro interrompido
 » Um padre na escuridão
 » Madrugada sem solidão
 » A história de quem fez história
 » Jovens e velhos e suas diferenças

Voltar