30/01/2019
Um padre na escuridão

 

Depois de aceitar o convite de um amigo do emprego que tínhamos num escritório de engenharia da Cidade de São Paulo para eu com ele ir assistir a uma aparição que iria me impressionar, numa noite lá fomos nós num bairro da cidade donde tal “fato” iria acontecer. Já estando lá, observando as pessoas que também iam chegando, pareceu-me que eram pessoas evoluídas e, na maioria, pertenciam à classe média. Adentramos àquele estabelecimento, um grande salão parecido com um teatro ou mesmo com um lugar espaçoso para reuniões.

Logo depois de todos os assentos estarem todos ocupados pelos participantes que também a tudo iriam assistir, eu e o amigo nos sentamos à frente na segunda fileira de cadeiras, isso defronte a uma grande cortina que, por detrás dela parecia haver um palco ou coisa parecida. Como se fez muito tempo dessa minha ida àquele lugar, não me lembro se alguém proferiu alguma explicação sobre o que iria ocorrer para quem estivesse lá pela primeira vez, como era o meu caso. Logo as luzes se apagaram e eu nunca havia visto uma escuridão tão negra como foi aquela. Todas as entradas de claridade estavam acortinadas.

E eu curioso. O que será que vai acontecer, O que vou ver de interessante? Será que aquela cortina que vi ocultando, talvez um palco, irá ser aberta e irei ver o padre, que, como dizia o meu amigo, dava seus conselhos e discorria sobre assuntos interessantes que eram os seus ensinamentos para aquele auditório das trevas? Nada se via e nada se ouvia até que uma voz se fez ouvir. Era a voz do padre repercutindo pela negridão. Primeiro explicou que precisava de uma espécie de corneta, para através dela, poder falar com os que estavam presentes naquela reunião. Se me lembro, com uma das mãos ele até batia nela (na corneta) provocando um ruído parecido como se ele estivesse batendo em algo plástico.

Depois dessa explicação ele “verbalmente se dirigiu” às pessoas que estavam sentadas na primeira fila de cadeiras:

--Fulano de tal você resolveu aquele teu problema?

--Sim padre... Graças aos teus conselhos.

E assim ele conversou com outras pessoas que também estavam na primeira fila. Pra mim tudo foi um aprendizado. Eu nunca havia imaginado que os espíritos enxergavam no escuro. E não sabia que um que fosse tão evoluído pudesse também falar “normalmente” com pessoas vivas de seus relacionamentos semanais. Importante também foi o fato do padre espírito não se atrasar para o seu compromisso, como acontece com os homens “sem palavra” que se atrasam como às vezes, até não comparecem (risos).

Não me lembro de qual foi o ensinamento do padre daquele dia, porque, talvez, como quase sempre, meu pensamento tenha ido para outro lugar deixando assim distraído o meu corpo abandonado naquele recinto ainda escuro. Mas ele retornou no reacender das luzes. Foi emocionante ver o abrir das cortinas daquele palco, porque na claridade elas escondiam o que havia naquele bastidor. Um homem de terno e de gravata (o médium) com uma cara de sono sentado numa cadeira, com vários cadeados fechados nas fortes correntes que o prendiam e o impediam de movimentar-se, comprovando assim, que nada de fraude poderia existir.

Aquele Centro Espírito tinha o nome do padre que espiritualmente lá semanalmente comparecia e era muito conhecido naquela época (não sei se ainda é) de quando lá estive com o meu amigo. Nunca mais voltei lá, talvez porque, meus estados de espírito me “espiritaram” por outro interesse, aquele do “eu só comigo mesmo”. E, aquele meu amigo era muito eclético. Era da teosofia, era espírita, era da maçonaria mista e sempre se utilizava de um pêndulo para resolver suas dúvidas, para responder às suas perguntas. Aquele conhecido pêndulo preso numa linha que segurada pelo dedo indicador e pelo polegar, quando se movia do lado esquerdo para o lado direito e vice-versa era, digamos o “sim” e ao contrário, da frente para trás era o “não”. Quando o pêndulo ficava girando em círculo a resposta à pergunta era o “talvez” ou o “não sei” (risos).

Não só o meu amigo, mas, outras pessoas também acreditavam que quem movia o pêndulo poderia ser algum espírito. E assim caminha a humanidade, quase todos “pendulados” pra cá e pra lá, no acredito ou não acredito, na é verdade ou é mentira, no existe ou não existe, no um dia tudo acaba ou depois continua, mas, se não existisse os opostos, as crenças e as descrenças, o pêndulo ficaria imóvel e nenhum espírito iria conseguir movimentá-lo (risos). O pêndulo só ficaria “pendulado” entre os dedos. Como seria chata a vida se só a realidade existisse. Ainda bem que todas as ilusões podem ser repartidas entre todos. Não querê-las pode levar qualquer um a viver distante dos outros que as abraçam com muito prazer (risos).

 

Altino Olympio

 

 



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