Almas suspeitosas

Sinopse:

Igreja evangélica abre templo de orações em frente a uma igreja católica e provoca conflito entre as comunidades religiosas. Para resolver os incidentes advindos da vizinhança, o caso vai a Justiça. A lei dos homens interpreta qual justiça? A confusão começa por incompatibilidade de seus contendores. Tudo acaba bem quando se convém?


Personagens:

Padre Antonio: (tipo IX) – Bonachão. Da paróquia de Nossa Senhora Glorinha do Sentimento Oceânico
Valtinho – Ministro da Eucaristia e Secretário eclesiástico : (tipo I). Autoritário.
Dr. Almeidinha – advogado: (tipo IV): desconfiado.
Dra. Francisca – advogada, esposa do Dr. Almeidinha e mãe de santo: (tipo VIII): valente.
Pastor Natanael: (tipo III): objetivo. Da Congregação da Correspondência Celeste Interativa
Irmã Tereza: colaboradora evangélica: (tipo VII) entusiasta.
Dr. Isaias: advogado (tipo II): vaidoso.
Dra. Rachel: Juíza , judia: (tipo VI): perseguida.
Kiko: escrevente de sala: (tipo V): atormentado.
Atos: três.

Ato I: Valtinho convence o padre Antonio a enfrentar o pastor e ultimá-lo a se mudar com sua freguesia. Conta com a assistência do Dr. Almeidinha na entrevista com Natanael na igreja.

Ato II: no templo evangélico, o pastor se consulta com o Dr. Isaias e, em seguida, recebe o padre e o secretário, para resposta. Quebra pau geral.

Ato III: na audiência de conciliação, instrução e julgamento, são ouvidas as testemunhas, feitos os debates orais e dada a sentença.

ATO I

(Na igreja católica, padre reza quando o Ministro da Eucaristia o interrompe)
Valtinho – Padre Antonio, o senhor tem de fazer alguma coisa com esses lazarentos...
Padre Antonio – Meu filho, o que você acha que eu posso fazer?
Valtinho – Expulsar esse bando de histéricos! É um absurdo a cara de pau desse pastor abrir uma filial em frente a nossa igreja.
Padre Antonio – Mas meu filho, nós não podemos tomar uma medida tão drástica dessa. Nós seríamos crucificados.
Valtinho - E o Senhor acha que eles têm o direito de invadir nosso território e roubar nossas ovelhas?
Padre Antonio – Não, meu filho. Eu só não sei como lidar com essa questão. Tenho rezado muito e pedido muito luz a nossa senhora, mãe santíssima.
Valtinho – Padre Antonio, que nossa senhora nos proteja, mas o senhor tem primeiro de colocar as coisas nos seus devidos lugares, a começar por deixar essa moleza.
Padre Antonio – Calma, meu filho!
Valtinho – Escute, padre. Ninguém vai lhe tirar a razão se o senhor agir rápido, porque foram eles que vieram perturbar a paz que reinava em nosso território. Agora se o senhor deixar o tempo passar e os larápios tomarem conta da situação, não vai ter como chutar a traseira deles.
Padre Antonio – Valtinho, você quer que eu vá até lá e dê um soco na cara do pastor e mande-o ir para os quintos dos infernos?
Valtinho – Isso! Mande-o catar coquinho em outra freguesia, porque essa já tem dono.
Padre Antonio – Misericórdia, meu filho. As coisas não se resolvem dessa maneira...
Valtinho – Está certo, padre. Eu quero ver quando o bispo perguntar por que a arrecadação da paróquia caiu de R$12.000,00 para menos de R$3.000, e o senhor não tiver dinheiro para mandar pro Vaticano.
Padre Antonio – Valha me Deus!
Valtinho – Pense, padre. Com menos esmolas, que hoje chega a R$500,00 por cada missa de final de semana, menos casamentos, menos batizados, menos cursos de noivo, de padrinhos, e outras ofertas, o senhor não vai ter dinheiro nem para por gasolina no seu Mercedes Classe A.
Padre Antonio – Virgem santíssima! Por que esse pastor tinha de escolher logo minha paróquia?
Valtinho – Porque o senhor é um bunda mole! Quando eu lhe falei que o imóvel estava dando sopa e o senhor devia tomar posse, o senhor disse: “mas meu filho, nós não podemos tomar uma medida tão drástica dessa. Nós seríamos crucificados.” Taí no que deu. Os lazarentos tomaram posse.
Padre Antonio – É que eu pensei que os vereadores iam nos ajudar a aprovar uma lei para doar o imóvel para a igreja...
Valtinho – Padre Antonio, acorda pra vida! Aquela cambada não move uma palha se não tiver um interesse bem claro na frente. E se depender do senhor para negociar com eles, a igreja vai falir. E pára de falar em ser crucificado, porque o senhor está muito gordo para ficar pendurado na cruz.
Padre Antonio – Ave Maria, meu filho! Você é muito rígido, tenha misericórdia.
Valtinho – Ah, graças a Deus! O Dr. Almeidinha está chegando.
Dr. Almeidinha – Bom dia, senhores! Sua bênção, padre (beija o anel de trinta diamentes).
Padre Antonio – Deus lhe abençoe, meu filho.
Valtinho – Bom dia, Dr. Almeidinha! Ainda bem que o senhor chegou, porque essa porta aqui já não pode ser mais chamada de mula de tão empacada.
Padre Antonio – Meu filho, tenha calma!
Valtinho – Dr. Almeidinha, o senhor acha que eu tenho de ter calma? O lazarento do pastor abre uma igreja em frente a nossa, promove culto com guitarra, bateria, música alta, faz bingo, cobra para tirar o satanás do corpo das pessoas, converte nossos fiéis para fé dele, e o padre Antonio quer que eu fique calmo?
Dr. Almeidinha – Padre Antonio, eu acho que tem muita coisa por trás disso, inclusive uma conspiração.
Padre Antonio – Valha-me Deus, meu filho! Do que você está falando?
Valtinho – Eu sabia que a gente tinha de agir rápido! Esclareça, doutor.
Dr. Almeidinha – Não sei ao certo, mas acho que nada ocorre por acaso. Se este pastor escolheu essa vizinhança, é porque motivo sinistro ele teve.
Padre Antonio – Não estou entendendo...
Valtinho – Ora, padre, além de o povo ser generoso e o imóvel ser da prefeitura, esse pastor lazarento veio provocar nossa igreja deliberadamente como algo maior, não é isso, doutor?
Dr. Almeidinha – Sinistro. Eu tenho até medo de pensar, mas acho que esse pastor está a serviço de um grupo poderoso...
Padre Antonio - Virgem santíssima! O que devemos fazer, doutor?
Valtinho – Chamar a polícia e mandar baixar o cacete no pastor!
Dr. Almeidinha – Não. Pode ser muito perigoso inicialmente. Temos de tentar uma aproximação com o inimigo e tentar descobrir as intenções dele.
Padre Antonio – Eu convidei o pastor Natanael para vir hoje aqui, para conversarmos.
Valtinho – Ai, meu Deus, como é bunda mole! Doutor, o senhor não acha que devemos aproveitar e intimar esse conspirador a dar o fora imediatamente?
Dr. Almeidinha – Não. Ele pode ter alguma arma escondida. Então, carece de estudar o território inimigo primeiro.
Padre Antonio – Esse tom de vocês esta me deixando nervoso. Não há um caminho jurídico para resolver esse problema e evitar um conflito?
Valtinho – Acorda pra vida, padre Antonio! O senhor não ouviu o doutor dizer que tem uma conspiração em curso e que esse pastor é um enviado de uma força poderosa, alô?
Dr. Almeidinha – Bem, podemos começar por propor um acordo, para saber as intenções da parte adversa, mas desconfio que será como tirar leite de pedra.
Padre Antonio – Vale a pena tentar, meu filho! Eu vou rezar muito para afastar essa desgraça de nossas vidas...
Valtinho – Jesus amado, tende piedade dos fracos! Doutor, qual os termos do acordo?
Dr. Almeidinha – Acho melhor a gente começar a expor nossos direitos.
Padre Antonio – Que direitos?
Valtinho – Ai, anta! Padre Antonio, se toca, a ameaça está na sua cara!
Dr. Almeidinha – Pois é. Podemos evocar o direito de vizinhança, mas temo que não seja suficiente para intimidá-lo. Então, teremos de apelar para a concorrência desleal.
Padre Antonio – Mas concorrência não é de comércio?
Valtinho – E quem disse que conspiração armada é coisa de igreja? Presta atenção, padre Antonio, a gente lida com um inimigo poderoso e fortemente armado.
Dr. Almeidinha – Acho que se evocarmos a Lei das farmácias, que proíbe o estabelecimento de uma num raio de 5 km, a analogia possa fazer efeito.
Padre Antonio – Mas não vendemos remédios...
Valtinho – Claro que vendemos! O que mais temos é gente doente pedindo cura para todos os tipos de males. Ainda ontem a dona Marta veio fazer uma promessa para a mãe dela curar da incontinência urinária, porque a fralda geriátrica teve um aumento absurdo.
Padre Antonio – Bem, vocês devem saber o que estão fazendo, porque eu sinceramente não entendo muito de estratégia de guerra. Quem dera ter os poderes de Santa Joana Darc, para enfrentar essa batalha! Por ora, vou rezar para que Deus nos ilumine.
Valtinho – Por falar em guerra, olha quem está chegando.
Padre Antonio – Pastor Natanael, a paz de cristo esteja consigo!
Pastor Natanael – Glória, irmão!
Valtinho – Esteja a vontade, pastor, pois na casa do senhor não existe satanás!
Pastor Natanael – Amém, irmão!
Padre Antonio – Pastor, quero introduzir o Dr. Almeidinha, que cuida dos assuntos jurídicos da Mitra e está aqui para nos ajudar nesse mundo de fé e espadas.
Pastor Natanael – Que a espada chamejante e gloriosa dos destemidos arrebente a escuridão e conceda o fogo da sabedoria em seu coração, irmão! Pois vejo que o irmão sofre de um mal trazido por um encosto envergonhado do saber e aflito do fazer. Toma Jesus, irmão!
Dr. Almeidinha – Obrigado! mas eu não gosto desses rituais efervescentes. Causam-me aflição.
Pastor Natanael – Relaxe, irmão, e deixe Jesus entrar no seu coração.
Valtinho – Ele é perigoso. Acho melhor o senhor já falar o que vai entrar no coração dele.
Padre Antonio – Veja bem, pastor amigo, o motivo do meu convite é uma série de reclamações da nossa comunidade e uma cobrança em relação à postura de sua Congregação ao se instalar em nossa vizinhança.
Valtinho – O senhor pensa que Jesus é surdo? Pra que essa gritaria? Pense, nem quando Jesus fez o sermão da montanha gritou tanto quanto o senhor grita, ou vai me dizer que sua igreja é para deficiente auditivo?
Padre Antonio – Espere um pouco, Valtinho. Deixe o Dr. Almeidinha falar. Desculpe, pastor.
Pastor Natanael – Ofereço minha outra face, irmão, porque os fariseus têm chicote doce e o sangue de Jesus tem poder! Glória, pai! Então, coração de mãe coragem, o que te aflige?
Dr. Almeidinha – O digno pastor deve saber que a paróquia de Nossa Senhora Glorinha do Sentimento Oceânico já está estabelecida nessa freguesia há mais de vinte anos, e a chegada da Congregação da Correspondência Celeste Interativa tem causado diversos transtornos, sobretudo feriu o direito de vizinhança. Então, somos obrigados a pedir que desocupem o perímetro que já era consagrado a Nossa Senhora Glorinha.
Pastor Natanael – Irmãos, estamos aqui porque fomos chamados pelo mistério da fé que conduz a glória do senhor. Não temos vontade livre, irmãos, somos servos do senhor como foi Deus quem fez você, foi deus quem fez o amor, o brilho das estrelas, fez nascer a eternidade num momento de carinho, foi Deus, aleluia, irmãos!
Valtinho – Dá pra parar de cantar e resolver as coisas, por que o doutor foi muito claro, pastor. Cai fora da área ou o negócio vai engrossar para o seu lado.
Padre Antonio - O que o Valtinho quer dizer, pastor, é que o doutor está propondo uma forma amigável de resolvermos essa situação que sua congregação provocou. Não precisamos envolver nossas comunidades numa guerra evitável.
Pastor Natanael – O senhor é meu pastor, nada me faltará. Erguei as mãos e daí glória a Deus, erguei as mãos e daí glória a Deus...

Valtinho – Ei, lazarento, essa musica é do Padre Marcelo. E pra bom entendedor, já vi que o caso é de concorrência desleal, doutor.
Dr. Almeidinha – Exato. Pastor, o senhor deve entender que o estabelecimento da Congregação da Correspondência Celeste Interativa em frente a nossa igreja representa uma concorrência desleal, pois o senhor usa nosso pasto para engordar seu rebanho.
Padre Antonio – Por nossa Senhora Aparecida, pastor, tire sua Congregação daqui!
Pastor Natanael – O sol nasce para todos, irmãos, e quem não tem competência não se estabelece, como descrito na Carta dos Corintians aos hebreus.
Valtinho – Só podia ser corintiano mesmo! O senhor já deve estar surdo por causa da gritaria do seu culto. O resumo da opera é o seguinte: ou sua Congregação sai do perímetro ou vai ter de pagar uma indenização milionária pelos prejuízos materiais e morais que tem causado a Nossa Senhora Glorinha do Sentimento Oceânico, e cabeça que não regula, o bolso é quem paga, não é isso, doutor?
Dr. Almeidinha – Exato. Queremos evitar uma demanda judicial, com a conseqüente exposição das igrejas, para pedir essa indenização.
Pastor Natanael – Bem, irmãos, nesse caso, vou ter de consultar nosso advogado, porque quem sua cama faz nela se deita, como disse Josias no deserto.
Valtinho – Falou em pagar, a porca torce o rabo.
Padre Antonio – Acho uma excelente idéia, amigo pastor!
Pastor Natanael – Glória, irmão!
Valtinho – O senhor vai dar a resposta quando?
Pastor Natanael – Quando o senhor Jesus aquebrantar o peso do ódio dos gentios na travessia de Canaã, pelos desígnios de Abraão no deserto de Salim, ou seja, vou falar com o advogado amanhã à tarde, então os convido a irem ao nosso templo às 15:00h.
Padre Antonio – Se Deus quiser, estaremos lá amanhã às quinze, amigo pastor.
Pastor Natanael – Glória, irmãos!
Valtinho – Passe bem, pastor!
Dr. Almeidinha – Até amanhã, pastor! (O pastor sai)
Padre Antonio - O que o senhor achou, doutor?
Dr. Almeidinha – Temo que não vai ser nada fácil convencer esse pastor...
Valtinho – O negócio é mexer no bolso do lazarento. Vamos por fermento no orçamento da igreja, não tem jeito. Aquele pastor tem de entender que quando o católico se converte para lá, passa a doar menos, porque passa a fazer apenas uma doação por mês.
Padre Antonio – Estamos numa encruzilhada, meu Deus!
Valtinho – Por falar em encruzilhada, não é sua esposa que está chegando, doutor?
Dra. Francisca – Oxumbá, Almeidinha! Padre! Valtinho!
Valtinho – Pra você também, doutora!
Dr. Almeidinha – Chegou em boa hora, a reunião já terminou.
Dra. Francisca – Percebi pelo cheiro de coxoxó no ar.
Padre Antonio – Minha filha está se sentindo bem?
Dra. Francisca – Cansada, padre. Lutei até agora com um caboclo de irerê. Comigo vai assim, se não arredar o couro come. E por falar nisso, o senhor pode me dar um vidrinho de água benta?
Valtinho – E desde quando mãe de santo usa água benta?
Dra. Francisca – Desde do tempo que caboclo enxerido mete a fuça em buraco de formigueiro, entendeu?
Padre Antonio – Valtinho, meu filho, vá buscar na sacristia um vidrinho pra doutora...
Valtinho – Melhor ouvir isso do que ser surdo...
Dra. Francisca – O bicho está pegando, né?
Dr. Almeidinha – O pastor aí da frente não vai ser fácil. Estou com medo que esse caso tome rumo desagradável.
Dra. Francisca – Se quiser, junto esse pastor pelos córneos e faço um trabalho de codó.
Padre Antonio – Não se preocupe, minha filha. Vamos esperar na mão de Deus.
Dra. Francisca – Padre, pra mim, quem come na mão é pombo. O senhor não sabe o que Terê pregueada faz com o intestino do jererê. Mês passado joguei uma Terê no Juiz da quarta vara e dei um tapinha nas costas dele. Ficou três dias com o fiofó ardendo.
Dr. Almeidinha - Benzinho, lá vem o Valtinho com sua água benta. Pega e vamos indo, porque tenho de passar no Fórum antes de ir pra casa.
Dra. Francisca – Obrigada. Isso aqui é pra fazer um trabalho pra mãe da Marta que está com incontinência urinária.
Dr. Almeidinha – Vamos benzinho. Sua benção, padre!
Valtinho – Que deus lhes guie e acompanhe, com Nossa Senhora e todos os anjos do céu!
Padre Antonio – Deus vos abençoe, meus filhos!
Valtinho – Que dupla!
Padre Antonio – Até que você foi cordial com ela, milagre!
Valtinho – E o senhor acha que eu dei água benta pra ela?
Padre Antonio – Meu filho, Deus castiga!
Valtinho – Tomara que ela beba um pouco de água de privada. E quem manda a Marta acender uma vela pra Deus e outra pro diabo. Ah, esse povo!
(BO)

ATO II


(No templo evangélico – ao som de Happy Day)
Irmã Tereza – Glória, pastor!
Pastor Natanael - Glória, irmã!
Irmã Tereza – Pastor, já tenho tudo confirmado para os cultos desse final de semana, amém Jesus!
Pastor Natanael – Amém, irmã!
Irmã Tereza – No sábado de manhã, temos os nossos irmãos sertanejos evangélicos Dida & Dodô, que vão louvar o senhor com os hinos Um fio de cabelo de Jesus no meu coração e O luar do sertão derrama uma gota de sangue de Jesus em meu coração.
Pastor Natanael – Louvado seja, irmã! Temos de pedir ao irmão Jonas para fazer a venda dos CDs deles depois do culto.
Irmã Tereza - Glória, pastor! Eu já falei com ele. O CD custa R$10,00 e vamos dividir meio a meio.
Pastor Natanael - Amém, irmã! E pro sábado à noite?
Irmã Tereza – Temos o grupo evangélico de hip hop Os Ex-presidiários de Jesus, que vão louvar o senhor com os hits Tô pegando Jesus e o outro Quem tá te pegando, mano, mina?
Pastor Natanael - Amém, irmã! Já arranjou quem vai vender os CDs?
Irmã Tereza - Glória, pastor! Eu já falei com o irmão Danielzinho, no mesmo esquema.
Pastor Natanael - Amém, irmã! E o pastor Eliseu confirmou pra domingo à noite?
Irmã Tereza - Glória, pastor! Pedi pra ele trazer trezentos exemplares do livro Fé de mais um cheira bem, e o irmão Felipe vai vender a R$15,00. Fica R$5,00 pra igreja.
Pastor Natanael - Amém, irmã! Precisamos fazer uma campanha para angariar fundos urgente, porque parece que vamos ter uma batalha judicial pela frente, e a irmã sabe que o Dr. Isaias não cobra menos de R$5.000,00 para pegar uma causa. E tudo por causa do seu ex-futuro marido, irmã ...
Irmã Tereza – Por Jesus, pastor! O que o beato do Valtinho anda aprontando?
Pastor Natanael – Tá pondo pilha no padre, para tirar a Congregação daqui.
Irmã Tereza – Oh, pai! Mas não se preocupe, pastor. Eu vou levantar os fundos necessários se o negócio for pro pau. Aquele viadinho do Valtinho vai ver com quantos paus se faz uma canoa.
Pastor Natanael - Amém, irmã! Ah, falando em canoa, olha o Dr. Isaias aí. Glória, irmão!
Irmã Tereza - Glória, irmão!
Dr. Isaias – Chamê, chamê, pra vochêis também!
Pastor Natanael - Amém, irmão!
Irmã Tereza - Oh, pai celestial abençoai o Dr. Isaias e conceda a luz de Jesus!
Dr. Isaias – O que está chapando?
Pastor Natanael – O padre aí de frente quer expulsar a nossa congregação daqui, senhor Jesus!
Irmã Tereza – E por causa de um baixinho, viadinho, que tem medo de ser homem, oh pai!
Pastor Natanael – Irmã, não misture os canais, senão o Dr. Não vai entender nada. Uma coisa foi ele ter desistido de casar com a irmã, outra coisa é ele botar pilha no padre para tirar nossa congregação daqui.
Dr. Isaias – Mas qual a chiadeira deles?
Pastor Natanael – Estão alegando direito de vizinhança e concorrência desleal, irmão. O Dr. Almeidinha até falou em indenização.
Dr. Isaias - Ah, esse Dr. Almeidinha é um advogadozinho chechelento, xereta chupeteiro de xibiu. Isso de indenização parece chibança xexéu que cheira a choldra de chuço chué e chorumela de choupal.
Irmã Tereza – Oh, pai! Mas a mulher dele é macumbeira.
Dr. Isaias – Ma Cherrie, eu vou dar ouvidos a xepa xexelenta? Se macumba ganhasse dinheiro, a Bahia seria o Estado mais rico do Brasil, compreende?
Pastor Natanael – Glória, irmão!
Irmã Tereza - Amém, irmão!
Dr. Isaias – Essas teses são muito fracas. Parece mais chafariz de chafurdo ou coisa de xavequeiro de xerém e chanana chanfrada no chiqueiro.
Pastor Natanael – Glória, irmão!
Irmã Tereza - Amém, irmão!
Dr. Isaias – Vamos rechaçar esse charravascal chapado no charuto de chasco.
Pastor Natanael – Glória, irmão!
Irmã Tereza - Amém, irmão!
Dr. Isaias – Vão ficar na chiadeira. E pra liberdade religiosa não tem chibança.
Pastor Natanael – Glória, irmão!
Irmã Tereza - Amém, irmão! E falou no cão chupando manga, olha eles aí!
Pastor Natanael - Glória, irmãos! Bem vindos a casa do senhor!
Irmã Tereza - Glória, irmãos!
Padre Antonio – Paz de Cristo!
Valtinho – Boa tarde!
Dr. Isaias - Boa tarde! Como vai nobre colega?
Dr. Almeidinha - Boa tarde! Não tão bem quanto o colega, mas vamos lutando.
Pastor Natanael - Amém, irmãos! Todos chegaram pontualmente.
Valtinho – Obrigação é obrigação, pastor. Seria bom se todos obedecessem a regras.
Irmã Tereza - Oh, pai! Tem gente que não se enxerga!
Valtinho – Vejo que dona Tereza continua bonita e sem economia de palavras.
Pastor Natanael - Glória, irmãos!
Padre Antonio – Que bom que a gente está entre amigos...
Valtinho – Só se for amigo da onça, dr. Almeidinha, porque eu só estou vendo cobra.
Dr. Almeidinha – Acalme-se, Valtinho, senão o senhor vai entornar o caldo antes da hora.
Dr. Isaias – O colega continua apagando chiadeira de chaleira?
Dr. Almeidinha – Eu temo que se não entortar o ferro enquanto ele esta quente, a gente tem mais trabalho.
Irmã Tereza – Com esse daí, doutor, o senhor vai ter de consertar o mundo para satisfazê-lo.
Valtinho – Que desagradável! Pena que seu entusiasmo por dinheiro não seja proporcional a justiça entre os homens.
Padre Antonio – Valha-me Deus! Vamos deixar os advogados conversarem, porque o assunto é delicado.
Pastor Natanael - Glória, irmãos!
Dr. Isaias – Chore a queixa, colega.
Dr. Almeidinha – Não sei se a coisa pode ser colocada de forma tão simplória, doutor. Em todo caso, parece óbvio que a Congregação da Correspondência Celeste Interativa invadiu o território da paróquia de Nossa Senhora Glorinha do Sentimento Oceânico, a causar perturbação no sossego da vizinhança, bem como concorrência desleal.
Dr. Isaias – Doutor, data vênia, o senhor está chiando chocho. Por acaso o senhor esqueceu o direito constitucional de liberdade religiosa?
Valtinho – E desde quando direito constitucional ampara cara de pau de roubar a freguesia do outro?
Irmã Tereza – Desde quando hipócritas não assumem o que pregam ou prometem, irmão!
Valtinho – Olha aqui, eu não casei com você, porque você é desregrada e infiel. Quem já se viu trocar de religião como quem troca de roupa?
Irmã Tereza – Você é um neurótico que vive atrás da igreja, para esconder seus pudores e suas manias de limpeza e ordem, quando na verdade sua santidade não passa de exigência para os outros lhe servirem.
Valtinho – Vocês vão pagar caro por essa aventura desvairada. Não se mexe em quem está quieto e paz com Deus. E eu não me casaria nunca com uma pessoa como você, irmã de araque.
Padre Antonio – Pelo amor de Deus, meus filhos! Calma!
Pastor Natanael – Oh, pai! Perdoe-os, eles não sabem o que dizem!
Dr. Isaias – Desse jeito, doutor, o seu cliente vai tomar na tarraqueta.
Dr. Almeidinha – Não quero nem ver se o seu cliente tiver essa assessoria, doutor.
Valtinho – Dr. Almeidinha, o senhor não vai dizer quanto a gente quer de indenização se eles não saírem já do perímetro?
Irmã Tereza – Não tô dizendo que o dono do mundo é exigente?
Dr. Almeidinha – Colega, seria interessante explicar que podemos demandar a retirada da congregação, sob pena de ela arcar com os prejuízos que fatalmente a igreja vai sofrer com a diminuição da freguesia. Assim, podemos fazer um acordo para a Congregação pagar um pedágio, se não quiser sair.
Dr. Isaias – Doutor, data vênia, por acaso eu tenho cara de quem toma gardenal ou o senhor está se influenciando por esse xereta de xibiu?
Valtinho – Xereta é a sua mãe, que bota no mundo uma criatura fria e calculista, que não tem noção do que se trata um sentimento religioso.
Irmã Tereza – Seu nó cego, se a vida lhe der limões, faça limonada.
Dr. Almeidinha – Acho que estamos mesmo perdendo tempo. É melhor a gente parar por aqui. Prefiro confiar em mim mesmo.
Valtinho – Isso mesmo! Vamos nos encontrar nas barras do tribunal! Há sempre uma maneira sensata de resolvermos as coisas.
Dr. Isaias – Se o colega tiver juízo, não ingressará em Juízo. Sabe que me importo com as pessoas.
Dr. Almeidinha – Temo que não será tão simples, colega.
Pastor Natanael - Sentimento é como quebra-molas, só servem para se perder tempo.
Padre Antonio – Pastor, que a Virgem Maria ilumine nossos corações! Vamos senhores.
Pastor Natanael - Glória, irmãos! Que a travessia da rua seja tão profícua quanto a travessia de Moises no mar vermelho!
Dr. Almeidinha – Até mais ver dona Tereza, senhores!
Valtinho – Passe bem, dona Tereza, senhores!
Dr. Isaias - Até mais ver, senhores!
(Saem padre, dr. Almeidinha e Valtinho)
Pastor Natanael – Senhor, que parada dura!
Dr. Isaias – Pensei que ia sair pancadaria.
Irmã Tereza – Um tem de bater e o outro tem de alisar, como diz a macumbeira.
Pastor Natanael – Credo irmã! Parecia Jesus expulsando os comerciantes da calçada da sinagoga.
Irmã Tereza – Doutor, dá para brigar mesmo ou um mau acordo é melhor que uma grande demanda?
Dr. Isaias – Nesse caso não vejo outra alternativa. Vamos esperar que tipo de ação o Dr. Almeidinha vai entrar, porque depende de como ele propor a ação. Garanto que também não é fácil para ele.
Pastor Natanael - E quanto o senhor vai cobrar das nossas humildes ovelhas para pegar essa causa?
Dr. Isaias – Veja bem, pastor, trata-se de uma causa bastante espinhosa em vista das partes envolvidas, bem como do grau de complexidade da matéria em baila. Isto posto, não posso fazer por menos de R$10.000,00.
Pastor Natanael - R$10.000,00?
Irmã Tereza - R$10.000,00?
Dr. Isaias – Pastor, se o senhor trabalhar bem a questão, vai arrecadar R$100.000,00 e ainda arrebanhar muitos simpatizantes, porque, convenhamos, não parece nada simpático uma igreja querer expulsar outra da vizinhança.
Pastor Isaias - Glória, irmãos! Vamos fazer um bingo com feijoada sem cachaça e chamar nossos irmãos pagodeiros, Zequinha da Boa e Zezão da Nova, que estão lançando o CD Judas deu o coração para Jesus, em louvor ao perdão.
Irmã Tereza – Aleluia, irmão! A batalha vai ser dura, mas Jesus vai abençoar o doutor para a vitória dessa causa justa. Já está ganha, douto! Tuas lágrimas correndo sobre sua face chegam a molhar teus gritos de socorro, mas, contudo, não te rendas, porque Jesus já mandou para essa guerra reforço. O ladrão pode roubar a tua paz, tua alegria, mas não rouba a confiança que tu tens para a vitória. Amém, irmão!
Dr. Isaias – Então, preparem-se. Quando a citação do fórum chegar, avisem-me para eu fazer a contestação. Embora a matéria me pareça somente de Direito, não podemos deixar de levar pelo menos uma testemunha para rebater eventuais alegações de fato.
Pastor Natanael – Pode deixar irmão. Vou providenciar tudo. Glória, pai!
Dr. Isaias – Vou deixar aqui os dados da minha conta para vocês fazerem o depósito dos honorários, ok?
Irmã Tereza – Fique tranqüilo, doutor. Deixe comigo.
Dr. Isaias – Então, Até mais ver dona Tereza, Pastor!
Irmã Tereza – Jesus acompanhe, doutor. Vou orar muito pro doutor ser vitorioso!
Pastor Natanael - Glória, irmão!
(BO)

ATO III

(No Fórum – sala de audiência)
Padre Antonio – Filho, você acha que essa tal liberdade religiosa pode convencer a juíza?
Dr. Almeidinha – Temo que seja um princípio tão forte quanto a liberdade de ir e vir, mas de bumbum de neném e cabeça de juiz nunca se sabe o que vai sair.
Padre Antonio – Valha-me Deus!
Dr. Almeidinha – Talvez fosse melhor fazer um acordo, mas não sei se o Dr. Isaias vai querer, porque, além de ser muito vaidoso, eles não têm nada a perder. Melhor rezar, padre!
(Chegam o Pastor e seu advogado)
Pastor Natanael - Glória, irmãos! Que felicidade ver os irmãos na paz do senhor!
Dr. Isaias – Boa tarde, senhores!
Padre Antonio – Paz de Cristo! Eu nem considero isso uma briga, engraçado!
Dr. Almeidinha – Boa tarde!
Pastor Natanael – A juíza já chegou?
Dr. Almeidinha – Ainda não. Temo que a audiência atrase.
Dr. Isaias – Ainda bem que ela é judia, vai ter total isenção no caso.
Padre Antonio – Eu estava conversando com o Dr. Almeidinha sobre a possibilidade de tentarmos mais uma vez um acordo, já que agora tem um processo.
Pastor Natanael – Da nossa parte, basta os senhores nos dar um imóvel para onde possamos ir e uma indenização de R$100.000,00 (cem mil reais), para cobrir os prejuízos na perda da freguesia.
Dr. Almeidinha – Mas senhores, a igreja é muito pobre. Não tem como atender isso, e, no mais, sua congregação atrai freguesia das classes C, D, E e MF.
Dr. Isaias – Tem classe MF?
Dr. Almeidinha – Dos mais fudidos.
Pastor Natanael – Oh, Glória, a freguesia comum de nossas igrejas são as classes C e D, porque normalmente as classes A e B, que sustentam a sua igreja, pagam para serem inocentados das bandalheiras pelo perdão do Senhor. Então, a nossa pretensão é muito justa.
Dr. Almeidinha – E que tal os senhores ficarem e pagar um pedágio de R$9.000,00 mensal, porque vocês estão conseguindo muitos jogadores de futebol e apresentadoras de programa de televisão?
Dr. Isaias – Minha proposta é melhor!
(a juíza chega acompanhada do escrevente de sala)
Kiko – Todos de pé!
Juíza – Boa tarde! Podem sentar.
Pastor Natanael - Glória, excelentíssima magnânima! Que felicidade vê-la na paz do senhor!
Dr. Isaias – Boa tarde, excelência!
Padre Antonio – Paz de Cristo, excelência!
Dr. Almeidinha – Boa tarde, excelência!
Juíza – Por Javé, não sei porque tenho o azar de pegar esse tipo de ação na minha vara. Kiko abra o termo para a síntese do necessário.
Kiko – Aberto, excelência.
Juíza – O presente caso versa sobre uma ordinária, na modalidade obrigação de fazer, com base no código de postura do município e do consumidor, em que a igreja Nossa Senhora Glorinha do sentimento Oceânico requer o despejo da Congregação da Correspondência Celeste Interativa, porque, em apertada síntese, não suporta o barulho provocado pelo fervor oratório e pelos constantes shows de musica de péssimo mau gosto, além da concorrência desleal, porque rouba dela os católicos indefesos. Por fim, alega que a Congregação tomou as terras que deveriam ser da igreja. Em sua resposta, a Congregação alega que a Nossa Senhora Glorinha está despeitada, a juntar fotos em que a figura é desprovida de peitos. Evoca o direito constitucional de liberdade religiosa, para afastar a concorrência desleal. A final, alega que a Congregação está edificada em terra santa, pois foi lá que o pastor recebeu a revelação de Jesus. É isso. Doutores, primeiro, quero dizer que achei tudo isso uma bosta! Ainda bem que me pagam para eu passar por isso. Seria melhor senhores fazerem um acordo, não é?
Dr. Almeidinha – Excelência, preliminarmente, qual a parte da minha petição está uma bosta?
Juíza – Toda.
Kiko – O senhor quer que conste a pergunta no termo da audiência, doutor?
Dr. Almeidinha – Não, obrigado.
Dr. Isaias – Excelência, fizemos uma proposta de acordo, mas o colega não quis aceitar e ainda disse que a Congregação atende, data vênia, os mais fudidos.
Juíza – Kiko, conste isso no termo.
Kiko – Que o pastor atende os fudidos?
Juíza – Sim. Dr. Almeidinha, o seu cliente não fez proposta de acordo?
Dr. Almeidinha – Fez, inclusive para eles ficarem lá e pedirem ajuda aos jogadores de futebol, mas o doutor disse que a proposta dele era melhor. Então, não deu certo.
Juíza – Não podia dar mesmo! O doutor não sabe que juntar religião e futebol só dá confusão, dr. Almeidinha?
Dr. Almeidinha – Não, mas também tem as apresentadoras de programa de televisão...
Juíza – Doutor, é melhor ouvir isso do que ser surda, não é? E já vi que essa bosta não tem acordo. Kiko, conste no termo: proposta a conciliação entre as partes, a autora não quis fazer acordo porque acha os fiéis da ré um bando de fudidos, a exceção dos jogadores de futebol e apresentadoras de programa de televisão; de outra parte, a ré está se achando com a bola toda. Restaram inconciliados. Vão ouvir testemunhas, doutores?
Dr. Almeidinha – Duas da nossa parte.
Dr. Isaias – Uma da nossa parte.
Juíza – Quem é a primeira testemunha, doutor Almeidinha?
Dr. Almeidinha – é o senhor Valtinho.
Juíza – Kiko, apregoe e qualifique a testemunha.
Kiko - senhor Valtinho, senhor Valtinho.
(entra o senhor Valtinho)
Kiko – Sente-se aqui. Qual o nome do senhor?
Valtinho – Valter Robba Rollo. Com dois bês e dois eles.
Kiko – O senhor tem apelido?
Valtinho – Beija-flor.
Kiko – Deve ser por causa do nariz. O senhor é casado?
Valtinho – Não, sou solteiro, mas já fui noivo.
Kiko – Grande bosta! O senhor mora aonde?
Valtinho – Na rua Armando Pinto, 60, Itaquera.
Kiko – Mora mal! Profissão?
Valtinho – Contador.
Kiko – Grande bosta! A testemunha está qualificada, excelência.
Juíza - Obrigada, Kiko... Bem, seu Valtinho, o senhor está aqui para ser testemunha e tem de dizer a verdade. Se o senhor mentir, pode ser preso por falso testemunho. O senhor promete dizer a verdade?
Valtinho – Prometo!
Dr. Isaias - Pela ordem, excelência, quero contraditar a testemunha.

Juíza - Qual o fundamento, doutor? Pode ditar para o escrevente, doutor.

Dr. Isaias - Incisos III e IV, do parágrafo 2º, do art. 405, do Código de Processo Civil. A testemunha não merece crédito, porque tem interesse no resultado do processo, pois não quis se casar com a dona Tereza e ficou transtornado por ela ter se convertido em evangélica.
Juíza – Doutor Almeidinha, o senhor tem alguma defesa? Pode ditar para o Escrevente, doutor.
Dr. Almeidinha – Não tem nada a ver. A dona Tereza é uma fuxiqueira. E se o Valtinho não quis casar-se com ela, foi porque notou um desleixo muito grande no comportamento dela. Ela tem perseguido o Valtinho, que é uma vítima. Pelo indeferimento, excelência.
Juíza – Senhor Valtinho, o senhor não se casou com a dona Tereza porque ela é convertida ou perseguida?
Valtinho – Pelas tribos de Jericó, o perseguido aqui sou eu. Não se pode aceitar uma perseguição desta.
Juíza – Indefiro a contradita, porque não se pode aceitar perseguição religiosa. Então, senhor Valtinho, o que o senhor sabe sobre os fatos?
Valtinho – Eu acho um absurdo a cara de pau desse pastor abrir uma filial em frente a Nossa Senhora Glorinha do Sentimento Oceânico, eles não têm o direito de invadir seu território e roubar suas ovelhas.
Juíza – (para Kiko) – Que o pastor é um cara de pau que rouba ovelhas. Perguntas, doutor Almeidinha?
Dr. Almeidinha – Sim, excelência. Eu gostaria de saber da testemunha quanto Nossa Senhora Glorinha perde com a concorrência da Correspondência Interativa.
Juíza – O senhor sabe o prejuízo da Santa Glorinha?
Valtinho - A arrecadação da paróquia caiu de R$12.000,00 para menos de R$3.000, porque tem tido menos casamentos, menos batizados, menos cursos de noivo, de padrinhos, e outras ofertas, e o padre não tem dinheiro nem para por gasolina na sua Mercedes Classe A.
Juíza – Que o padre está andando a pé e não faz mais casamentos, batizados, e outras coisas, porque as esmolas da igreja não chegam a R$3.000. Outra pergunta doutor?
Dr. Almeidinha – Sim, excelência. Eu gostaria de saber da testemunha se as atividades da Congregação são muito barulhentas?
Juíza – Que tipo de agitação eles fazem?
Valtinho – Não há quem agüente o final de semana inteiro de pagode, hip hop e música sertaneja. E pra completar, eles berram mesmo quando usam microfones para serem ouvidos por um raio de 50 kilometros, como se Jesus estivesse tão distante.
Juíza – Que os evangélicos têm péssimo gosto musical e acham que Jesus está a uns 50 kilometros de distância dali. Mais pergunta doutor?
Dr. Almeidinha – Não, excelência. Muito obrigado!
Juíza – Dr. Isaias, o senhor tem perguntas?
Dr. Isaias – Sim, excelência. Eu gostaria de saber da testemunha se na Nossa Senhora Glorinha eles cantam músicas de Roberto Carlos e do Pe. Marcelo, e se usam caixas de som?
Juíza – Não me digam que vocês passam o domingo inteiro ouvindo Roberto Carlos?
Valtinho – Não, a gente só ouve Jesus Cristo e irmão camarada.
Juíza – Que só ouvem o irmão camarada Jesus Cristo. Mais perguntas?
Dr. Isaias – Se o padre plantou alguma vez pelo menos mandioca no terreno onde está a Congregação?
Juíza – O padre cultivava mandioca na área?
Valtinho – Não. O Pe. compra farinha no supermercado para comer com rapadura raspada, porque a rapadura pode quebrar a dentadura dele e ele não dispensa uma sobremesa doce.
Juíza – Que rapadura é doce, mas não é mole não, por isso o Pe é chegado na farinha. Mais perguntas?
Dr. Isaias – Não, excelência, obrigado!
Juíza – Quem é a segunda testemunha, doutor Almeidinha?
Dr. Almeidinha – é a Fatinha, digo, dona Fátima.
Juíza – Kiko, apregoe e qualifique a testemunha.
Kiko - dona Fátima, dona Fátima.
(entra dona Fátima)
Kiko – Sente-se aqui. Qual o nome da senhora?
Fátima –Fátima Guerreira de Almeida.
Kiko – A senhora tem apelido?
Fátima – Fatinha chicote de rabo de cavalo.
Kiko – Deve ser por causa do aplique. A senhora é casada?
Fátima – Sou, com um advogado.
Kiko – Grande bosta! A senhora mora aonde?
Fátima – Na rua do Bornel, 70, Tatuapé.
Kiko – Mora mal! Profissão?
Fátima – Advogada e mãe de santo.
Kiko – Qual dá mais dinheiro?
Fátima – Mãe de santo.
Kiko – A testemunha está qualificada, excelência.
Juíza - Obrigada, Kiko... Bem, dra. Fátima, como sabe, a senhora está aqui para ser testemunha e tem de dizer a verdade. Se a senhora mentir, pode ser presa por falso testemunho. A senhora promete dizer a verdade?
Fátima – Prometo!
Dr. Isaias - Pela ordem, excelência, quero contraditar a testemunha.

Juíza - Qual o fundamento, doutor? Pode ditar para o escrevente, doutor.

Dr. Isaias - Incisos III e IV, do parágrafo 2º, do art. 405, do Código de Processo Civil. A testemunha não merece crédito, porque tem amizade íntima com a parte e tem interesse no resultado do processo, ela é esposa do Dr. Almeidinha.
Juíza – Dr. Almeidinha, o senhor tem defesa?
Dr. Almeidinha – A contradita não prospera, excelência, porque faz muito tempo que não tenho intimidade com a minha esposa, pois estou passando por um problema de espinguela caída.
Juíza - Dra. Fátima, a senhora tem tido relações íntimas com seu marido e se interessa em favorecer o padre?
Dra. Fátima – Eparrei minha santa! com tanto caboclo que se encosta em mim, não sinto a menor falta dessa intimidade, e se eu tivesse interesse no padre, já teria entregado um ebó numa cruz do cemitério.
Juíza – Indefiro a contradita, porquanto a testemunha tem mais interesse em outros caboclos, e, por ela, o padre já estaria no cemitério. Dra. Fátima, o que a senhora sabe sobre os fatos?
Dra. Fátima – Eles não sabem tirar o capeta do corpo da pessoa. De tanto gritar na cabeça dela, o capeta fica quieto. Uma vez eu fiz um trabalho para um moço ficar louco pela minha vizinha, aí a mãe dele levou o rapaz na congregação, e lá o pastor pensou que ele estava dominado pelo capeta.
Juíza – Que o pastor não sabe o que é trabalho, só pensa no capeta. Pergunta dr. Almeidinha?
Dr. Almeidinha – Gostaria de saber quem cobra menos para tirar o capeta do corpo da pessoa, o pastor, o padre ou a depoente?
Juíza – O consumidor pode ter mais economia aonde?
Dra. Fátima – Levando em consideração que eu ponho, o pastor finge que tira, e o padre cobra em dinheiro, a concorrência é desleal.
Juíza – Que apesar de cobrar caro, o padre presta o serviço de acordo com o código do consumidor. Mais perguntas, dr. Almeidinha?
Dr. Almeidinha – Não, excelência. Satisfeito.
Juíza – Dr. Isaias, perguntas?
Dr. Isaias – Sim, excelência. Gostaria de saber da depoente se, quando o padre tira o capeta da pessoa, ela grita?
Juíza – Tem gritaria na igreja também, dra. Fátima?
Dra. Fátima – Depende se o padre dominar pela frente ou por trás. Mas geralmente ele vai na casa do encapetado e faz o serviço nos fundos da casa dele.
Juíza – Que geralmente o padre age por trás, para não fazer barulho. Mais perguntas, doutor?
Dr. Isaias – Não, obrigado, excelência.
Juíza – Vai ouvir a testemunha, doutor?
Dr. Isaias – Sim, excelência, a dona Tereza.
Juíza – Kiko, apregoe e qualifique a testemunha.
Kiko - dona Tereza, dona Tereza.
(entra dona Tereza)
Kiko – Sente-se aqui. Qual o nome da senhora?
Tereza – Tereza Batista.
Kiko – A senhora tem apelido?
Tereza –Terezinha de Jesus, Tetê Cansada de guerra.
Kiko – Não tem nada a ver. A senhora é casada?
Tereza – Sou solteira e dei meu coração a Jesus.
Kiko – Problema seu! A senhora mora aonde?
Tereza – Na rua dos Névios , 666, jd. Âranha .
Kiko – Mora mal! Profissão?
Tereza – Bibliotecária.
Kiko – A testemunha está qualificada, excelência.
Juíza - Obrigada, Kiko... Bem, dona Tereza, a senhora está aqui para ser testemunha e tem de dizer a verdade. Se a senhora mentir, pode ser presa por falso testemunho. A senhora promete dizer a verdade?
Tereza – Prometo!
Dr. Almeidinha - Pela ordem, excelência, quero contraditar a testemunha.

Juíza - Qual o fundamento, doutor? Pode ditar para o escrevente, doutor.

Dr. Isaias - Incisos III e IV, do parágrafo 2º, do art. 405, do Código de Processo Civil. A testemunha não merece crédito, porque tem rancor do Valtinho, que não quis se casar com ela, e tem interesse no resultado da demanda, ela dá maior força para a Congregação para se vingar dele.
Juíza – Dr. Isaias, o senhor tem defesa?
Dr. Isaias – A contradita deve ser indeferida, excelência, porque ela nunca deu para o Valtinho motivo de inimizade. Como pode uma pessoa perder aquilo que nunca teve?
Juíza - A senhora já deu alguma vez para o senhor Valtinho demonstrações de ressentimento?
Tereza – Eu dei gloria a Jesus por não ter me casado com o nervoso do Valtinho. Eu acho ele uma pessoa muito boa e correta, mas ele cobra muito para ter relação com ele, ao mesmo tempo que ele dá, ele cobra.
Juíza – Que gosta do senhor Valtinho, mas sabe que ele cobra muito caro para dar seu coração. Indefiro a contradita, em virtude de ela nunca ter dado para o senhor Valtinho uma palavra sequer de ressentimento. Dona Tereza, o que a senhora sabe sobre os fatos?
Tereza – Oh, pai! O capeta que impede a vizinhança ecumênica em nome de Jesus. A fé do povo estava morta como Lázaro, ai o pastor disse: nossos irmãos hão de ressuscitar, venham para fora, e ai a Congregação nasceu em frente ao padre.
Juíza – Que o padre não quer realizar um culto ecumênico, a inadmitir que estava se fazendo de morto como Lázaro. Pergunta doutor?
Dr. Isaias – Gostaria de saber se a testemunha pode dizer quais são as atividades da Nossa Senhora Glorinha.
Juíza – O que eles fazem lá?
Tereza - Oh, pai! Macarronada, porpeta, lasanha, pastel, pizza, nhoque da sorte. Depende de qual santo for o dia. Ontem foi dia de pãozinho de santo Antonio, com quermesse, pau de sebo e tudo. Eles só pensam em comer e falar da vida dos outros.
Juíza – Que eles cozinham, fazem festas e fofocas todos os dias. Mais pergunta doutor?
Dr. Isaias – Se ela sabe que o padre Antonio tem um filho bastardo?
Padre Antonio – Dr. Almeidinha, ele pode perguntar isso?
Dr. Almeidinha – Excelência, protesto. A pergunta não tem nada a ver com o caso.
Juíza – E daí? Agora eu quero saber. Dona Tereza, o padre é pai de quantos filhos?
Tereza - Oh, pai! Que eu saiba, ele tem um filho que mora em Jarinu. A mãe batizou o menino no Anhangabaú, porque o padre não deu dinheiro para irem para Jaú.
Juíza – Que o padre tem sido miserável com seu filho bastardo. Mais perguntas doutor?
Dr. Isaias – Sim, excelência. Qual foi a revelação que o pastor teve para edificar a Congregação em frente a Nossa Senhora Glorinha?
Juíza – O pastor viu o que?
Tereza – Oh, pai! O pastor Natanael estava na Lapa e tomou o trem para Botujuru. Fazia dois dias que não comia nada. Foi quando teve a visão de um anjo enviado, que lhe disse para tomar posse dessa terra prometida aos nossos irmãos. Aleluia, irmão!
Juíza – Que o pastor saiu de Botujuru com fome e seguiu a indicação de um enviado sobre como ganhar a área de seus irmãos. Mais perguntas, doutor?
Dr. Isaias – Não, excelência, estou satisfeito.
Juíza – Perguntas Dr. Almeidinha?
Dr. Almeidinha – Sim, excelência. Gostaria de saber da testemunha se a Congregação paga IPTU e as taxas municipais?
Juíza – Paga os impostos?
Tereza – Oh, pai! Não. Como entidade religiosa, a Congregação não paga nada. Tem uma lei que protege os cultos ao senhor.
Juíza – Que o culto do senhor é isento. Mais perguntas doutor?
Dr. Almeidinha – Se ela prefere ouvir hip hop, pagode e música sertaneja ou os CDs do Pavaroti e Plácido Domingos com o senhor Valtinho?
Juíza – A sra. gosta de ouvir música de mau gosto ou música brega em companhia de um ex-namorado?
Tereza - Oh, pai! Não. Ele só pensa em dar a eucaristia e acha tudo imoral. Tudo pra ele parece sujo. Eu ensaiei a dança da garrafa (oi, dá uma baixadinha...), e quando mostrei pra ele, fui chamada de profana, filha do pandega. Então, encontrei o Pastor que me libertou e me ensinou a cantar Quem tá te pegando, mano, mina?
Juíza – Que depois de o pastor introduzir Jesus em seu coração e tirar o capeta de seu corpo, ela começou a dançar no culto para irritar seu ex-namorado. Mais perguntas, doutor?
Dr. Almeidinha – Não, excelência, muito obrigado.
Juíza – Pelos profetas de Jericó! Passemos então aos debates orais. Com a palavra o Dr. Almeidinha.
Dr. Almeidinha – Excelência, nobre colega, senhores, no caminho tinha uma pedra, uma pedra tinha no caminho, no caminho tinha uma pedra, uma pedra tinha no caminho, no caminho tinha uma pedra, uma pedra tinha no caminho, no caminho tinha uma pedra, uma pedra tinha no caminho, no caminho tinha uma pedra, uma pedra tinha no caminho, no caminho tinha uma pedra, uma pedra tinha no caminho, no caminho tinha uma pedra, uma pedra tinha no caminho, no caminho tinha uma pedra, uma pedra tinha no caminho, no caminho tinha uma pedra, uma pedra tinha no caminho, no caminho tinha uma pedra, uma pedra tinha no caminho...
Juíza – Doutor, que palhaçada é essa?
Dr. Almeidinha – Está vendo, excelência? Se estas simples repetições causam desconforto, imagine passar a noite ouvindo hip hop evangélico. Então, excelência, a ação deve ser julgada procedente, porque além de tudo esse pastor sem eira nem beira, não sabe tirar o capeta do corpo de ninguém, como disse Fatinha, minha compreensiva esposa, bem como...
Dr. Isaias – Protesto, excelência. Ele não come ninguém.
Juíza – Protesto aceito. Mude de rumo, doutor.
Dr. Almeidinha – Estava a dizer que o pastor acha que Jesus mora a 50 kilometros da Congregação, como disse o senhor Valtinho. Por fim, deve esse povo abandonar as terras que pertencem por direito ao povo católico, bem como...
Dr. Isaias – eh!
Dr. Almeidinha – a Congregação deve arcar com o pagamento dos prejuízos sofridos pela autora. Os orçamentos estão nos autos. Deve também a ré arcar com as despesas processuais e honorários advocatícios. E assim se estará fazendo a mais alta justiça!
Juíza – Dr. Isaias, pode fazer seus memoriais.
Dr. Isaias – Obrigado, excelência. Nobre colega, senhores, a ação deve ser julgada improcedente, porque todo mundo tem o direito de fazer o que quiser com sua vida, como a dona Tereza, que não conseguia nada la com o Valtinho. Aliás, esses católicos são uns frouxos, ou não dão no couro, ou não assumem os filhos, porque não sabem usar a camisinha.
Dr. Almeidinha – Protesto, excelência. Meu caso é de espinhela caída.
Juíza – Protesto negado, doutor. O senhor não me engana.
Dr. Isaias – Além do mais, eu tenho de dizer mais uma coisa...
(Pastor Natanael levanta-se, agarra o advogado e fecha-lhe a boca com a mão direita e o derruba ao chão)
Juíza – O que o senhor pensa que está fazendo, pastor?
Pastor Natanael – A mesma coisa que a Nossa Senhora Glorinha está querendo fazer conosco, ou seja, impedir-nos de exercer nosso direito de expressão.
Dr. Isaias – (levanta-se) – Como pode o peixe vivo viver fora da água fria? Se por na panela de água quente, vai morrer. Então, está provado. Em casa de ferreiro, espeto de barro, pois se deve ter cuidado: a Santa é de barro. Confio, por fim, na sabedoria de V. Exa., que é uma mulher bonita, saudável, vitaminada, poderosa, definitiva, absoluta, tudo de bom, para prolatar a sentença com justiça magnânima. Obrigado!
Juíza – Algo mais a requerer, doutores?
Dr. Almeidinha – Não. Obrigado!
Dr. Isaias – Não. Obrigado!
Juíza – Nada mais sendo requerido, encerro a instrução processual e passo a sentença. Conforme o Pentateuco, na terceira seção de Números, que relata a fracassada intenção de se entrar em terras atravessando a rua (Num.20,14-29), até os limites da calçada (Num.33,1-49), surge a descrição das fronteiras ideais deste território, bem como
Todos – eh!
Juíza - Digo, e também as regras para a partilha da terra, e das regras de matrimônio para manter intacta a herança das terras da igreja (capítulos 34-36). Portanto, padres não podem ter filhos, para que a igreja não tenha de arcar com a herança de terceiros. Agiu o padre de conforme com as regras, a ignorar o filho de Jarinu. Já a Congregação não acertou quando se quis passar por filho bastardo da igreja a pleitear a partilha da terra. Segundo as testemunhas, Nossa Senhora já reina há quase dois mil anos. Quem deve se casar é o senhor Valtinho e a dona Tereza, pois são eles a razão da discórdia de tudo quanto dos autos consta. Isto posto, julgo procedente a presente ação para condenar a Congregação a desocupar o imóvel em noventa dias, sob pena de despejo forçado, bem como
Todos – eh!
Juíza - Digo, e também condeno o senhor Valtinho, em igual prazo, a se casar com a dona Tereza, sob pena de ser chamado de Beija-flor frutinha. Deixo de condenar a Congregação no pagamento de indenização, custas e despesas processuais, porque é isenta. Porém, vai pagar os honorários advocatícios do patrono de Nossa Senhora no valor de R$10.000,00 (dez mil reais), porque o pagamento do advogado é sagrado. Nada mais, PRIC. Espero não vê-los mais na minha frente, senhores! (sai)
Dr. Almeidinha – Parabéns, excelência!
Padre Antonio – Graças a Deus, meu filho!
Pastor Natanael – Podemos recorrer, doutor Isaias?
Dr. Isaias – Com certeza! A sentença tem inúmeras falhas.
Pastor Natanael – Se bem que se a dona Tereza se casar com o Valtinho....
Padre Antonio – O que é que tem o Valtinho?
Pastor Natanael – O senhor tem de fazer o casamento dele. Não posso imaginar outro padre fazendo o casamento deles!!! Oh, Glória!
Dr. Isaias – Se eles pagarem nossos honorários, não vejo problema em encerrarmos o caso com um acordo, porque o Tribunal pode reformar essa sentença...
Dr. Almeidinha – Mais ou menos. Mais pros honorários e menos para a reforma.
Dr. Isaias – Bobagem! Senhor Kiko, por favor, chame os felizardos, para receber a boa nova de Jesus e terminar essa estória em alto astral.
Kiko – Dona Tereza, senhor Valtinho!
(eles entram)
Dr. Isaias – Viva os noivos! Viva os noivos!
Valtinho – Que palhaçada é essa?
Dr. Almeidinha – A juíza condenou, quer dizer, determinou o seu casamento com a dona Tereza, e o Padre Antonio vai casar vocês.
Tereza – E quem disse que eu quero casar na igreja?
Pastor Natanael – Podemos fazer um culto ecumênico!
Valtinho – Eu só caso se ela se desconverter!
Padre Antonio – Meu filho, pare de ser tão exigente, a dona Tereza é uma alma boa!
Valtinho – Para mim, ela é uma alma suspeitosa.
Dr. Almeidinha – Somos todos almas suspeitosas.
Dr. Isaias – Senhor Valtinho, a dona Tereza é uma mulher bonita, saudável, vitaminada, poderosa, definitiva, absoluta, tudo de bom!
Pastor Natanael – Então, irmão Antonio, vamos celebrar o casamento?
Padre Antonio – Sim, mas e os padrinhos?
Pastor Natanael – Do senhor Valtinho, são a Dra. Francisca e o Dr. Almeidinha, e, da dona Tereza, o Dr. Isaias e o senhor Kiko. Senhor Kiko, por favor chame a Dra. Francisca.
Kiko – Dra. Francisca, macumbeira dos inferno!
(entra a dra. Francisca)
Dra. Francisca – Coxoxó, para todos!
Padre Antonio – Ajoelhem-se irmãos. Estamos aqui para celebrar o casamento de Valter Robba Rollo e Tereza Batista.
Pastor Natanael – Pelos poderes do sangue de Jesus, unam-se os irmãos!
Padre Antonio – Se tiver alguém dentre vós que saiba algo que impeça esse matrimonio, que fale agora ou se cale para sempre!
Kiko – Eu posso falar?
Pastor Natanael – Cala a boca!
Kiko – Não, é que esse casamento não tem testemunhas...
Pastor Natanael – Não tem problema! Dona Francisca, a senhora pode chamar algumas entidades para servirem de testemunhas?
Dra. Francisca – Agora, zenzifio! Ogum terê maraboca Yara sobá. Ogum terê Ynaê Ginaina Yemanja. Rhá! Xororó! Está todo mundo aí, Ogum, Yara, Ynaê, Ginaina e Yemanjá.
Pastor Natanael - Oh, Glória! Pode prosseguir padre.
Padre Antonio – Tereza Batista, é de sua livre e espontânea vontade receber em matrimonio Valter Robba Rollo?
Tereza – Oh, pai! Sim!
Padre Antonio - Valter Robba Rollo, é de sua livre e espontânea vontade receber em matrimonio Tereza Batista?
(Todos tiram uma arma e apontam para ele)
Valtinho – Sim!
Padre Antonio – Eu vos declaro marido e mulher!
Pastor Natanael – Oh, Jesus! Depois do vento vem a vitória! O noivo pode beijar a noiva.
(beijam-se)

FIM

Hermano Leitão & Edson Navarro

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