Almas Perfumadas

A peça adulta em quatro atos com duas cenas no primeiro, uma no segundo, três no terceiro, e cinco no quarto.


São oito personagens:

. Denis Maynard (dono do bar, 36 anos);
. Marta Escolástica de Aquino (dona do salão de beleza, 34 anos);
. Laísla Kanabishna (24 anos, terapeuta ocupacional);
. Carlos Márcio Ulianov (25 anos, massagista);
. William de Pérgamo James (30 anos, médico);
. Renato Jorge Alvar Cortez (28 anos, arquiteto);
. Daniela Concanha Pinto (25 anos, nutricionista);
. Fábio Narciso Grande (26 anos, advogado).

ATO I

Cena I


(Daniela chega no salão de beleza de Marta para entregar o convite de casamento pra ela. Marcou também com a Laísla, sua madrinha de casamento, e aproveitou para fazer uma massagem com o Márcio).

Marta – Virgem Santíssima, Dani, tudo bem?
Daniela – Estou estressadíssima com os preparativos para o casamento, aí!
Marta – Por Nossa Senhora! Já está aí, né?
Daniela – É, menina, só falta uma semana!
Marta – Se Deus quiser vai dar tudo certo! O destino de uma pessoa é predeterminado pela inalterável lei de Deus. Fique tranqüila.
Daniela – Para garantir tudo, fiz o Fabinho transferir cem mil reais pra minha conta. Ontem, assinamos a escritura do apartamento em nosso nome, e só faltam os últimos detalhes da decoração do apartamento.
Marta – Menina, isso é uma Graça de Deus!
Daniela – Gracinha tá nosso apartamento. O Jorge é um decorador maravilhoso!
Marta – Onde é mesmo o apartamento?
Daniela - É nos Jardins, na Alameda Min. Rocha Azevedo, chiquíssimo! Aí, menina, toma logo o convite antes que eu esqueça...
Marta – Daniela Cocanha Pinto e Fábio Narciso Grande. Seu nome vai ficar Daniela Pinto Grande?
Daniela – Não. Vou assinar Daniela Cocanha Grande.
Marta – Essas decisões são fruto do seu livre arbítrio.
Daniela – É, menina, mas agora eu preciso é de uma massagem. Chama o Márcio pra mim. Eu vou aproveitar enquanto espero a Laísla.
Marta – Soube que a Laísla vai ser sua madrinha. Você não acha essa menina esquisita, assim meio debilóide?
Daniela – Meu bem, ela é cheia da grana, e foi a única que aceitou me dar de presente um Civic Ex automático, completíssimo. Por que eu iria reparar nesse detalhe. Bobagem...
Marta – É verdade. Só alguns podem desfrutar da presença de Deus, outros são separados Dele de maneira inapelável. Um minutinho, e o Márcio já vem, tá?
Daniela – Obrigada, lindinha!
Márcio – E aí, mona, vai desencalhar com um bofe cheio da grana, heim!
Daniela – O melhor que é verdade, menino! Não poderia ter escolhido melhor.
Márcio – Bicha, você é o eterno exemplo que a história da sociedade é a história das lutas entre os exploradores e os explorados.
Daniela – Menino, a melhor coisa é quando você consegue alguma coisa com pouco esforço ou às custas do esforço alheio. E por falar nisso, vamos à massagem.
Márcio – Deita. E os planos para o casamento, como estão?
Daniela – Eu quero zerar meu cartão de crédito e ficar livre de dívidas; vou fazer uma poupança de cinco anos para alcançar um milhão de dólares; vou fazer o melhor plano de saúde; um plano de previdência privada; vou conhecer o mundo inteiro...
Márcio – Bicha, isso parece os sete passos para a liberdade financeira, do livro O Sucesso não ocorre por acaso! Praga!
Daniela – O quê?
Márcio - Não, acho que você deveria passar a lua de mel em Praga. É a mais linda cidade da Europa. Pena que deixou de ser comunista.
Daniela – Nós vamos passar a lua de mel em Las Vegas. Tipo assim, unir o útil ao agradável.
Márcio – Espero que seu agradável esteja se referindo a sexo.
Daniela – Bobagem, estou falando em ganhar dinheiro. E, além disso, a Liz Taylor também escolheu Las Vegas para passar a lua de mel.
Márcio – Qual foi a cidade que ela não passou lua de mel? Não vale.
Daniela – E você já se casou?
Márcio – Casar assim de morar junto só três vezes.
Daniela – Nossa! Você já poderia estar riquíssimo. Por que não deu certo?
Márcio – Sei lá, menina. No começo é tudo de bom. Muito sexo, muitas viagens, muitas festas... Depois de um ano, sobram algumas festas, uma viagem micha por ano, nada de sexo ou no máximo uma masturbação basiquésima e a gente acaba virando irmãs de leito.
Daniela – Deixa que um dia eu vou te apresentar para o Jorge. Menino, ele é um partidão!
Márcio – Ah, se for como o PC do B, eu dispenso. Não quero ficar ouvindo aquela história da divisão eqüitativa de todo o trabalho em função da habilidade e de todos os benefícios em função das necessidades.
Daniela – Whatever! Você tem de pensar no seu futuro.
Márcio – Olha quem está chegando.
Daniela – (grita) Oi, Laísla! Vem aqui, menina.
Laísla – Oí, gente! Shamê! Shamê!
Daniela – Que bom que você veio. Por favor, pega ali minha bolsa e tira seu convite.
Márcio – Menina, que básica sua roupa. Você me empresta pra eu usar no carnaval do Rio?
Laísla – (vai pegando a bolsa e o convite) Esse é um traje que representa o sofrimento, que é o destino da humanidade.
Daniela – Por isso que é bom ter dinheiro. A gente passa os dias tristes em Paris e as noites de inverno nas ilhas Seichelles.
Márcio – Que destino, menina! Depois da derrocada do comunismo, será que o Bill Gates vai inventar a abolição da propriedade privada, e a responsabilidade de satisfazer às necessidades públicas recairá sobre um Windows revolucionário?
Laísla – Pode ser, porque toda existência é sofrimento provocado pela ignorância e pode-se vencer o sofrimento superando a ignorância. Talvez a saída seja um programa de computador.
Daniela – Então eu vou comprar ações da Microsoft.
Márcio – Bicha, tu não perdes uma.
Laísla – Os princípios definem-se mais pelas ações das pessoas do que por seus pensamentos.
Daniela – Menina, por falar nisso, você precisa passar lá para pegar sua roupa de madrinha.
Laísla – Tá bom! Sabe que eu tenho sonhado muito com esse vestido. Acho que é porque ele tem muitos apliques de rosas, e talvez esteja faltando alguns apliques de frutas.
Daniela – Querida, são apenas cinqüenta rosas champagne, cinqüenta salmon, cinqüenta laranja, cinqüenta cor-de-rosa, cinqüenta vermelha e cinqüenta roxa. Pra quê você quer colocar as frutas?
Márcio – Vai ver ela é a reencarnação da Carmem Miranda, meu bem...
Laísla – Não, não é exatamente isso, ou até talvez possa ser, mas é que eu queria representar pra vocês uma puja.
Daniela – Puja?
Laísla – É uma oferenda para iluminar seu carma.
Daniela – E isso traz dinheiro?
Márcio – Explica pra ela que pode reencarnar em barra de ouro, querida.
Laísla – Exato. O que eu quero dizer é que a vida humana é cíclica: depois de morrer, a alma deixa o corpo e renasce em outra pessoa, animal, vegetal ou mineral.
Márcio – Tá vendo, Dani, eu volto como Bambi e você em barra de ouro.
Marta – Mas, por Jesus Cristo, o que vocês falam tanto. Santíssima, Laísla, como você está bonita!
Laísla – Obrigada. É que eu estou a três encarnações de Rama e a duas de Krishna.
Marta – Deus que me perdoe, mas eu acredito que ou as pessoas vão para o céu ou para o inferno.
Laísla – Os homens dividem-se em dois grupos: os que buscam as recompensas sagradas e profanas (saúde, dinheiro, filhos e uma boa reencarnação) e aqueles que procuram se libertar deste mundo.
Márcio – Ah! Por isso que a Gal cantou aquele negócio de vaca profana, e todas as bibas dizem que vivem em um corpo emprestado.
Marta – E você Laísla não vai abraçar o sacramento do casamento?
Laísla – Vou, porque o casamento é um sofrimento que todos nós temos de passar. Só assim aprendemos que todo sofrimento é provocado pela ignorância, mas pode-se vencer o sofrimento superando a ignorância.
Marta – Deus me defenda! Prefiro morrer na ignorância a sofrer uma penitência desta.
Marcio – E por falar em sofrimento, a massagem acabou, meu bem!
Daniela – Ai, que ótimo! Ainda dá tempo passar no escritório do Fabinho e pedir a ele para comprar aquelas ações em meu nome. (lembra) Vou casar com separação parcial de bens. Laísla você já comprou meu presentinho?
Laísla – Posso te dar em dinheiro, Dani? É que eu não sou muito apegada nessas coisas...
Márcio – É como os capitalistas dizem: o que incomoda não é o dinheiro, mas a falta dele!
Daniela – Claro, querida! Mas pode ser em cheque mesmo. E aproveitando você poderia fazer agora, pra eu poder comprar se possível hoje.
Laísla – (tirando o talão da bolsa) E de quanto Dani?
Daniela – Olha, o carro custa quarenta e cinco mil e quinhentos; o IPVA está em três e quinhentos, tem o licenciamento e o despachante; então faz um cheque de cinqüenta mil que resolve.
Laísla – Pronto aqui está. Ai, Dani, eu queria que você soubesse que a qualidade da reencarnação vem determinada pelo carma. Tudo de bom pra você!
Daniela – Que ótimo! Vamos nessa?
Laísla – Vamos. Tchau!
Daniela – Tchau!
Márcio – (para Laísla) Se eu me casar de novo, eu te aviso. Tchau!
Marta – Que os anjos lhes guiem!
Márcio – Que menina podre! Fez a outra assinar um cheque maior que o valor do carro. Isso não é nem a prática da mais valia, é exploração na cara dura.
Marta – Que pecado! A idiota cheia do dinheiro fica aí com essa estória de carma, Rama, Khrisna e sei lá mais o que. Mas, a predestinação define, apenas, o destino final de um indivíduo. Suas ações, durante a vida, são frutos do livre arbítrio. Deus tá vendo...
Márcio – É como eu falei, meu bem, a história da sociedade é a história das lutas entre os exploradores e os explorados.

Cena II

(Fábio chega no bar do Denis para entregar o convite de casamento pra ele. Marcou também com o William, seu padrinho de casamento, e com Jorge, o arquiteto que decora seu apartamento).

Fábio – E aí, Denis, tudo bom?
Denis – Beleza, Fabinho?
Fábio – Belezinha. Vim te trazer o convite de casamento.
Denis – Obrigado. Então vai casar mesmo, cara?
Fábio – Agora não tem mais jeito. Tá tudo pronto. Mas eu estou brincando. Estou completamente apaixonado.
Denis – É, meu amigo, o casamento é uma instituição que colabora para o pleno emprego. Movimenta uma indústria fabulosa, desde floriculturas até linhas aéreas. É como meu pai fala: casamento é como a avenida Paulista, começa no Paraíso e termina na Consolação.
Fábio – Você fala assim porque já casou uma vez.
Denis – Três vezes, meu amigo!
Fábio – Não sabia. Pensei que tivesse sido só uma.
Denis – Nossa! É que, na primeira vez, minha mulher morreu no parto, e meu filho sobreviveu. Como eu não tinha vocação para ser mãe, resolvi casar de novo. Adivinha o que? Tivemos trigêmeos. Ai, achei que ela estava rejeitando meu primeiro filho. Separei de novo e me divorciei. E pra completar, depois de ter tomado um porre, engravidei uma menina de dezessete anos. O pai dela era coronel do exército em plena ditadura. Casei, né. E mais. Fui pai de quadrigêmeos. Hoje sou pai de oito filhos. Meu amigo, assim que acabou a ditadura e o meu sogro se aposentou, separei de novo.
Fábio – Caramba, Denis! Então você nunca casou por amor?
Denis – Acho que não, mas teve suas recompensas, porque cresci muito financeiramente. Olha só, no primeiro casamento, construí minha primeira casa, comprei meu primeiro carro, tive meu primeiro emprego sério e ainda colei a metade da herança da falecida, porque os pais dela morreram num acidente de navio seis meses depois do nosso casamento.
Fábio – Mas eu estou apaixonado. A Dani é super meiga, carinhosa, inteligente, e o melhor de tudo é que rola uma super química.
Denis – É eu só experimento dessa química quando rola um baseado. Fabinho, eu sou péssimo de sexo. Já na lua de mel do segundo casamento, ela gritou comigo: Denis, chega de sexo, já faz oito dias que a gente transa de manhã, de tarde e de noite, eu não agüento mais.
Fábio – Puxa, Denis! Até nesse ponto eu tenho sorte. A Dani é quem me ensinou tudo sobre sexo...
Denis – Legal! Você toma alguma coisa?
Fábio – Vê pra mim um frozen marguerita e um salmon com creme de espinafre, legal? Vou aproveitar para esperar o Jorge e o William, eu marquei com eles aqui.
Denis – Belezinha! Pode deixar que eu preparo no capricho.
Fábio – Obrigado, Denis!
(minutos depois)
Jorge – Olá, Fabinho, tudo bom?
Fábio – Tranqüilo. Que bom te ver e obrigado por você ter vindo até aqui, mas é que eu tinha de entregar os convites e ainda tem um monte de coisa pra fazer.
Jorge – Sem problemas Fabinho, na boa!
Fábio – Então, a Dani disse que tinha algumas pendências pra resolver. O que está faltando?
Jorge – (rindo) Eu estou um pouco enlouquecido (ri). Tem alguns detalhes do quarto de vocês, do seu escritório e da sala de estar que a gente precisa definir.
Fábio – Mas já não estavam definidos?
Jorge – Estavam (ri). Mas é que a Dani quer mudar os objetos de decoração do seu escritório e da sala.
Fábio – E qual o problema, Jorge?
Jorge – Bem (ri de nervoso). É que ela quer trocar a escultura de Dom Quixote de prata por uma carranca da Bahia, para afastar olho gordo, e por uma bacia de madeira com patuás para atrair fortuna.
Fábio – Destoa muito?
Jorge – Fabinho, o seu escritório é em estilo Vitoriano, no mais clássico inglês conservador. Está percebendo?
Fábio – Ponha, por favor, na cobertura perto da piscina. Ok, Jorge?
Jorge – Ok! Ela quer colocar na sala uma pirâmide de cristal de 1,50m de base, que é para atrair energias boas e riquezas faraônicas.
Fábio – E como é mesmo a sala?
Jorge – Fabinho, o estilo é art nouveau, aquela cheia de linhas curvas, baseadas em sinuosas formas vegetais, percebe?
Fábio – Não tem problema. Ponha, por favor, a pirâmide do outro lado da piscina, Ok?
Jorge – Entendi, você não usa muito a piscina, não é?
Fábio – Não. Eu tenho problema de pele. Não posso pegar muito sol.
Jorge – Então, tá! Ah! Só mais uma coisa. Por favor, fala pra Dani que eu só vou colocar as cortinas e os tapetes daqui a duas semanas, porque a realidade inata de todas as aparências é a vontade, e em decoração não dá pra arriscar, se não acaba em acidente de navio, não é Fabinho?
Fábio – Entendi, Jorge. Fique a vontade. Vou falar pra Dani que será uma surpresa.
Jorge – Ótimo! Adoro você, Fabinho. Obrigado!
Fábio – Com essa diplomacia, você não deve ter problemas no casamento, não é?
Jorge – Já casei cinco vezes, mas ainda não apareceu a pessoa certa...
Fábio - Falando em aparecer, olha quem está chegando. E aí, camarada, como vai o her doctor William?
William – Tudo ótimo! E você?
Fábio – Beleza. Deixa eu te apresentar um amigo. Este é o Jorge, ele está cuidando da decoração do nosso apartamento.
William – Tudo bem?
Jorge – Tudo bem! Prazer!
Fábio – Quando for casar, pode chamar o Jorge. Ele é um excelente profissional.
Jorge – Não exagera. Você é que legal abessa. Mas estou às ordens.
William – Até que essa estória do Fábio casar me deu ânimo de pedir a Laísla em casamento.
Fábio – Não diga!
William – É, já estou cansado de morar sozinho e ter de cuidar dos lances domésticos.
Jorge – Mas tem ótimas agências de domésticas em São Paulo.
William – Não é esse o ponto. É que pela teoria da poupança, a possibilidade de rendimentos futuros incentiva as pessoas a evitarem o consumo no presente, canalizando parte de suas receitas para o aumento da produção. Ou seja, o casamento é um investimento, a partir do momento que você cria uma sociedade, reparte os custos e corta gastos.
Jorge - Você é economista?
William – Não sou médico.
Jorge – Ah!
Fábio – Acho que era mais ou menos isso que o Denis estava falando...
Denis – (entrando) – Meus ouvidos de tuberculoso ouviram meu nome... Toma seu drink.
Fábio – O William falou que casamento é um investimento...
Denis – Ah! É o que meu pai sempre fala. Na hora de escolher a mulher pra casar, é bom pensar, porque liso com liso só dá escorrego.
William – Tudo bem, Denis? No meu caso, não tenho o que me preocupar. A Laísla é filha única e o pai dela, que morreu num acidente de navio, deixou uma fortuna para ela.
Denis – Deve ter sido o mesmo navio que matou os pais da minha primeira mulher. Você já conhece o Jorge?
William – O Fabinho já me falou muito bem dele.
Jorge – O Fabinho é muito gentil.
Denis – Como diz meu pai, com um sábio fala-se de reputação e de ciência; com um príncipe, daquilo que se relaciona com sua grandeza; com todo homem, de prazer, como a bebida. Vocês aceitam um drink?
Jorge – Não, obrigado. Trabalho e bebida são como morte e vida, não tem como experimentar as duas ao mesmo tempo.
William – Denis, quero um dry Martine, pois é mais fácil suportar a morte sem pensar nela, do que pensar numa morte sem riscos.
Jorge - Não se pode dizer que um homem suporte a morte fácil ou dificilmente quando não pensa absolutamente nela. Quem nada sente, nada suporta. Se você deseja a bebida, vai bebê-la.
Denis – E por falar em sem riscos e nela, eu me lembrei da minha mãe. Ela diz que não dá pra colocar uma cueca minha perto de uma calcinha, porque é capaz de engravidar a dona, tá louco! Trago já seu drink.
William - Todo nosso raciocínio se reduz a ceder ao nosso sentimento. Não é, Jorge?
Jorge – Não. Nosso raciocínio se reduz a ceder ao nosso sentimento em matéria de gosto, mas não em matéria de conhecimento.
Denis – (de volta) Acho que estou sentindo um clima, ruim! Aqui está, William. (puxa de lado) Acho melhor você ficar calado. Você não sabe que os homossexuais são mais inteligentes?
William – (Pega o drink e toma de uma vez).
Fábio – E o salmão, Denis? Não está pronto?
Denis – Num minuto, Fabinho. Eu já vou pegar.
Jorge – Eu vou aproveitar o ensejo e já vou andando para lhes deixar a incerteza da vida e a natureza infrutífera da renúncia virtuosa. Au revoir!
Denis – Volte sempre!
William – Tchau!
Fabinho – Obrigado, Jorge. Qualquer coisa me telefona, tá?
Jorge – Tá bem! (sai)
Denis – E você, William, não quer aproveitar e experimentar o salmão com creme de espinafre, para nos fazer companhia?
William – Não. Obrigado, Denis. Também vou indo. Tenho de passar no laboratório para assinar um monte de laudo médico. Tchau, Fabinho!
Fabio – Vê se leva mesmo a sério o negócio do casamento.
William – Acho que vou pedir a Laísla em casamento hoje mesmo. Fui!
Denis – Teve uma hora que pensei que os dois iam pegar pesado...
Fabio – Que nada! Os dois são duas ladies, quer dizer, dois gentlemen, ou um gentleman e uma lady, whatever.
Denis – Entendi. É por que o Jorge às vezes nem parece que é homossexual, não é?
Fábio – Ele é superboa gente! Eu adoro conversar com ele.
Denis – É mesmo, mas vamos comer que toda essa conversa me deixou passado.

(Fim do primeiro ato)

ATO II

(Passaram-se três meses do casamento de Daniela e Fábio. Nesse interregno, Laísla e William também se casaram e estão recebendo os amigos para um jantar a petit comité. Todos estão experimentando o casamento. Tanta empolgação contagia Jorge e Márcio a se casarem).

William – (dirigindo-se a Laísla que está meditando) Querida, o pessoal deve chegar a qualquer momento, já está tudo pronto?
Laísla – Sim, meu sanchiyamana ,eu fiz arroz ao curry, frango ao curry, camarão ao curry, chapattis (pão sem fermento), para comer com curry, e uma salada de cenoura, ostras, espinafre e ovos de duas gemas ao curry. Para sobremesa, manga ao curry. E para beber chá de lan lan e caldo de cana-de-açúcar.
William – Ótimo, mas da próxima vez basta um prato ao curry, porque pode causar varicosidade de uma veia do plexo superficial do reto ou do ânus. Às vezes, provocam coceira, ardência ou sangram. Dizem até que dá câimbra no ânus, mas não há estudo comprovado. Seria desagradável se as pessoas saíssem daqui dizendo que sua comida é um cu com câimbra.
Laísla – Mas meu sanchiyamana, os frutos do mar fortalecem o cérebro; o espinafre aumenta a força; as cenouras são boas para a vista; as ostras contribuem para virilidade; e ovos de duas gemas e frutas geminadas fazem as mulheres parir gêmeos siameses.
William – Está bem, querida, mas minha mãe não comeu ovos de duas gemas para me gerar, bastou fazer uma laparoscopia no hospital, certo?
Laísla - Mas meu sanchiyamana, às vezes o parto é um desequilíbrio entre forças mentais e pessoais, assim como o resultado de influências carmáticas.
William – A campanhia está tocando.
Laísla – Quem será?
William – Deixa que eu atendo. (abre a porta) Ah, você é o massagista.
Márcio – Sou, gato, mas o meu nome profissional é Márcio.
William – Desculpa, é que a gente só se viu no casamento do Fabinho.
Márcio – É. Eu bem que me ofereci a Laísla pra ser dama de honra no seu casamento, mas não deu, né? (Laísla se aproxima) Tá boa, mona?
Laísla – Que bom que chegou você! Shamê, Shamê!
Márcio – Pra você também! Essa sua roupa me lembra repolho roxo...
William – Fique a vontade. Você bebe alguma coisa?
Márcio – O que você tem?
Laísla – Caldo de cana-de-açúcar e chá de lan lan.
Márcio – Que chá é esse?
Laísla – É suco do caldo do arroz cozido com semente de erva doce.
Márcio – Parece mais porra de elefante. Acho que não vou querer agora não. Mais tarde eu vejo.
William – Tá chegando mais gente. Eu vou atender. (abre a porta) Oi, Dani, oi, Fabinho!
Daniela – Olá!
Fábio – Olá!
Laísla - Que bom que chegou você! Shamê, Shamê!
Daniela – Olá!
Fábio – Olá!
Márcio – (cumprimenta Fábio) Oi, bofe! (cumprimenta Daniela) Bicha, você está parecendo destaque de escola de samba...
Daniela – Olá! E o Jorge ainda não chegou?
William – Não. O arquiteto ainda não chegou.
Márcio – Não vá esquecer que o nome profissional dele é Jorge, tá boa!
Fábio – Márcio, você não deixa passar uma...(ri)
Márcio – Claro! Esse outro aí olha pra cara da gente pensando que é crachá de hospital. Que nem no dia que eu fui pro pronto socorro para tirar um negócio que ficou entalado, o médico disse assim: segurança chama a enfermeira e manda ela levar esse paciente para a sala de sutura, e depois encaminha para o urologista. Ninguém tinha nome naquela porra!
Laísla – E com que você se entalou?
Márcio – Com uma cenoura. Desse tamanho!
Laísla – Olha, tem cenoura na salada que eu fiz, mas está ralada e faz muito bem pra vista.
Márcio – Tá boa santa! Naquele dia minha vista íntima ficou cega e costurada. Não chego perto mais nem de bronzeador de cenoura.
William – (para Daniela e Fábio) E a vida de casado?
Fábio – Estamos no terceiro mês de lua de mel. A Dani é uma verdadeira professora da arte do amor, né amor?
Daniela – Você não viu o anel, o colar e o par de brincos que o Fabinho me deu. Eram da avó dele que morreu num acidente de navio.
Márcio – Ultimamente tem ocorrido muito acidente de navio.
William – As jóias se parecem com a dona (toca a campanhia) Deixa que eu atendo. (abre a porta) Salve, Denis!
Denis – Beleza, William! Oi, moçada! (cumprimenta todos).
Laísla - Shamê, Shamê! Que bom que chegou você!
Denis – Como você está linda!
William – Acho que você só não conhece o Márcio, massagista.
Marcio – Não. Meu nome é Carlos Márcio Ulianov. Massagista é minha profissão. Tudo bom?
Denis – Tudo. Meu nome é Denis Maynard, sou viúvo, dono de um bar, tenho oito filhos e nunca exerci minha profissão de engenheiro.
Márcio – Tá boa a descrição! Mas eu não faço bico no classline da Folha. E você com oito filhos podia montar um time de baseball.
Denis – É uma idéia muito boa. Mas sabia que foi tudo acidente?
Márcio – Não me diga que você tem um pau tão grande que estoura a camisinha?
Denis – Márcio, eu sou do tempo que camisinha é roupa pra recém nascido.
Laísla – Denis, eu acho você muito sábio, mas acho que isso é o ciclo de vidas, mortes e renascimentos que cada ser sensível experimenta como conseqüência de seu carma. O fato de muita gente estar usando a camisinha, tem de ser compensada pelo nascimento de trigêmeos, quadrigêmeos, como o caso também do William Bonner e da Fátima Bernardes.
Denis – Nunca havia pensado assim Laísla, porque meu pai sempre diz que cabeça que não regula o bolso é quem paga.
Laísla – No fundo é a mesma coisa, Denis. William, a campanhia.
William – Estou indo. (abre a porta) Como vai Marta?
Marta – Ave Maria! Pensei que não ia sair mais da igreja...
Márcio – Tá boa! Você estava era fazendo um boquete no padre.
Marta – Deus me livre!
Laísla - Que bom que chegou você! Shamê, Shamê!
Marta – A paz de Jesus! Oi, Dani, oi Fabinho!
Daniela – Oi, lindinha. Eu tava mais era querendo falar com você, menina.
Marta – Valha-me Deus! O que foi?
Daniela – Não nada. Você ainda tem a Nota Fiscal do faqueiro que você deu de presente?
Marta – Acho que sim. Por que?
Daniela – Porque eu ganhei três e vou vender o mais barato.
Denis – Mas, Dani, taí uma coisa que a gente precisa sempre ter dois de reserva. Eu não sei como a gente perde tanto garfo e faca.
Márcio – É verdade, bicha. Faqueiro é como camisinha. Uma para o dia a dia, que você deixa sempre a mão. Outra você guarda na gaveta para estoque e reposição. E a terceira é para dia de festa, quando você sempre precisa de mais uma.
Daniela – Não, mas é que eu ganhei dois de prata. E vendendo um dá pra comprar outro e ainda sobra dinheiro.
William – A campanhia de novo. Deve ser nosso último convidado. (abre a porta) Como vai, Jorge?
Jorge – Ótimo. E você?
William – Bem. Todos já chegaram.
Fábio – E aí, artista! Já estava com saudades de você.
Jorge – Eu também.
Denis – Fala aí!
Jorge – Olá, todos!
Laísla - Que bom que chegou você! Shamê, Shamê!
Jorge – Oi!
Daniela – Oi, Jorge! Deixa eu te apresentar um amigo. Jorge, esse é o Márcio. Márcio, esse é o Jorge.
Márcio – (Para Daniela) Bicha, seja discreta! (Para o Jorge) Me gusta mutcho conescer osted!
Jorge – Osted es argentino?
Márcio – Não, eu falo castelhano quando eu bebo ou sobe alguma porra na minha cabeça.
Laísla – Você quer beber alguma coisa agora?
Márcio – Não, obrigado. (sussurra) eu tava querendo é outra coisa.
(Márcio fica paralisado, olhando uma para o Jorge).
William – Querida, já está na hora de servir o jantar.
Daniela – Acho bom, porque agora tenho de alimentar-me por dois.
Marta – Por Santa Joana! Você está grávida! De quantos meses?
Daniela – Já estou no quarto mês...
Marta – Mas você está casada só há três meses...
Fábio – É que a gente comeu o mel antes da lua...
Laísla – Marta, você me ajuda a pegar a comida na cozinha.
(Em apartado)
Márcio – Aí, gato, onde será que é o banheiro?
Jorge – Deve ser ali no corredor. Vamos lá que eu também estou afim.
Denis – Filhos. Como sabê-lo se não tê-los.
William – Eu já tenho dez filhos!
Fábio – Pára com isso. Que estória é essa?
William – É verdade. Eu sou doador de sêmen. E já há registro de dez fecundações com meu sêmen.
Denis – Olha, aquela frase “ah, se todos no mundo fossem iguais a você, que maravilha o mundo seria”, vai deixar de ser uma ilusão.
Fábio – Depende de quem se copia...
Daniela – E você não tem de pagar nada para a mãe de seus filhos?
William – Não. A minha identidade é totalmente protegida. Eu segui o exemplo de meu pai, que eu não sei nem quem foi. A minha mãe foi uma das precursoras daquela moda de ser mãe independente.
Fábio – É. Mas eu já vi casos no Fórum em que um filho pediu a Justiça para revelar a identidade paterna e ganhou.
Denis – Eu sei o que é ter de pagar pensão alimentícia para sete filhos. Na audiência de separação com a mãe dos meus quadrigêmeos, a Juíza ficou uma pistola comigo, só porque eu disse que não podia pagar os oito salários para eles, porque já criava um, que ficou comigo depois que minha mãe morreu num acidente de navio, e pagava três salários para os outros três filhos. Sabe o que ela disse?
Fábio – O quê?
Denis – Quem não tem competência não se estabelece. Como se eu fosse o único culpado.
Daniela – Sabe que é uma boa. Quando for possível gerar um filho totalmente fora do útero, as mulheres poderão ter uma dúzia de filhos com diversos pais bem estabelecidos.
William – Ou então a gente poderia estocar bastante óvulos e procriar somente homens.
Denis – Isso é totalmente possível, mas eu acho que a vida sem sexo é igual a dançar com irmã ou comer chuchu na praia. Olhem pra elas, não são lindas.
(Laísla e Marta voltam)

Laísla – Eu falei para o William que as ações pessoais, boas ou más, ficam ligadas à alma durante sua transmigração. Uma forma de carma é determinada no nascimento e se resolve na vida presente; outra forma permanece latente durante esta vida; e uma terceira, elaborada nesta vida, amadurece em uma vida futura.
Marta – Eu só sei que filhos é um presente de Deus.
Denis – Só se for presente de grego. O primeiro filho sim. É um impacto tão grande que você acha que o mundo mudou, porque você adquire de imediato um amor gigante por uma pessoa que tem apenas um ou dois dias de vida. Mas aí, quando vão chegando os outros, você começa a perceber que virou escravo deles. E pior: seus planos são os últimos. A regra é a seguinte: se a mamãe está contente, todos estão contentes. Se o papai não está feliz, quem se importa?
Fábio – Onde é que o Jorge se meteu?
William – Acho que foi ao banheiro.
(Jorge e Márcio voltam, arrumando-se).
Laísla – Por favor, peguem seus pratos e sirvam-se. Nós temos, arroz ao curry, frango ao curry, camarão ao curry, chapattis (pão sem fermento), para comer com curry, e uma salada de cenoura, ostras, espinafre e ovos de duas gemas ao curry. Para sobremesa, manga ao curry. E para beber chá de lan lan e caldo de cana-de-açúcar.
Márcio – Ai, Laísla, eu vou tomar só um copo de caldo-de-cana. Estou de dieta, bicha.
Jorge – (Para o Márcio) O que é chá de lan lan?
Márcio – É porra de elefante reencarnado.
Jorge – Acho que dá para encarar a salada.
Denis – Foi você que fez tudo Laísla?
Laísla – Foi. Espero que você goste de curry.
Denis – Eu adoro curry. No cardápio do meu restaurante tem vários pratos ao curry.
Laísla – Que bom! Você é a primeira pessoa que eu conheço que adora curry.
Jorge – O médico falou que eu tenho de maneirar na pimenta e no curry.
Márcio – É melhor mesmo. Outro dia fui fazer um banho de assento com água quente e quase me queimei todo. Ao invés de usar o chuveirinho, usei uma bacia de alumínio. A bicha ficou mais quente que a água. Passei três dias com a bunda vermelha.
Fábio – Qualquer coisa, Jorge, tem o médico aí.
Daniela – Que tem o médico aí, Fabinho! Quem quiser tem de pagar a consulta. Já basta você que atende pelo telefone sem cobrar.
William – A Dani tem razão, Fabinho. Se a gente bobear, vive trabalhando de graça.
Marta – A comida é muito exótica. Todas deviam ter esse gosto forte para banir de uma vez o pecado da gula.
Denis – Está uma delícia. Está me lembrando um prato especial que eu comi em Parati, num restaurante persa. Era iogurte, pepino, e almôndegas ao curry.
Laísla – Denis, eu ia fazer esse prato, mas o William não gosta de almôndegas.
Márcio – Eu estou de regime e, pra falar a verdade, eu vim só pra (olha pro Jorge) dar o ar da minha beleza. Por falar nisso, Jorge, vamos indo para a Blue Space dançar um pouquinho?
Jorge – Vamos. Faz um tempão que não saio para dançar.
Fábio – Mas você chegou há pouco. Fica mais um pouco.
Jorge – Adoro sua companhia, mas vou aproveitar para relaxar um pouco mais.
Fábio – Que pena. Quer dizer, então aproveite.
Daniela – Tchau, Jorge. Cuide bem do meu amiguinho.
Jorge – Tchau!
Márcio – Pode deixar, bicha. Tchau pra todos!
William – Foi um prazer tê-los aqui.
Denis – Tchau!
Laísla - Shamê, Shamê! Que pena que já vai você!
Marta – Vão com Deus!
Daniela – Mas esse Marcio é uma figura!
Marta – Acho que a igreja vai ter de rever os conceitos sobre o amor homossexual. Hoje em dia está se tornando cada vez mais comum casais como eles. Dizem que na televisão, todos os artistas são gays.
Fábio – A revisão das leis acontece exatamente quando os valores sociais suplantam as normas. Já houve tempo quando era proibido por lei beijar em praça pública, casar no civil duas vezes, mulher usar biquíni, fumar maconha, desfilar no carnaval com a genitália desnuda, e por ai vai.
Denis - É como meu pai diz. O difícil é entrar a cabacinha. Já minha mãe diz que a primeira a gente nunca esquece. E eu sempre digo aos meus amigos, por mais que se balance a caneca, o último pingo é da cueca. Adorei esse chá de lan lan.
Laísla – Você é tão espirituoso, Denis. Você estudou filosofia.
Denis – Não. Estudei engenharia. É que lá no meu bar a gente troca muita idéia.
Daniela – A conversa está muito instrutiva, mas eu tenho de me recolher cedo.
William – É cuidado com o bebê?
Daniela – Não. É que tenho de acordar cedo, para levar umas peças para um leilão. Vou ganhar trinta por cento de comissão. Preciso chegar cedo para organizar tudo.
William – Em todo caso, cuide-se.
Daniela – Obrigada. Tchau.
William – Foi um prazer tê-los aqui.
Denis – Tchau!
Laísla - Shamê, Shamê! Que pena que já vai você!
Marta – Vão com Deus!
Fábio – Tchau!
William – A Daniela é uma mulher formidável. Tem um tino pra negócios inigualável. O Fabinho realmente é um homem sortudo.
Marta – A mulher é igual a serpente. Enfeitiça, antes de dar o bote. E pensar que ela procria a sua semelhança. Meu Deus, nunca vamos estar livres da desgraça, porque a mancha do pecado se transmite de geração em geração mediante o ato da procriação.
William – Já pensou se os meus dez filhos têm mães tão produtivas como a Dani?
Marta – Deus me livre! Vou pra casa antes que eu acredite que seja uma mensagem apocalíptica. Laísla, minha amiga, obrigada pelo jantar. Vou fazer jejum por três dias, só de pensar na sua comida.
Laísla – Shamê, Shamê! Que pena que já vai você!
William – Foi um prazer tê-la conosco.
Denis – Vou aproveitar a saideira, e vou também.
Laísla – Não, Denis. Fique mais um pouco.
Denis – É melhor continuarmos outro dia. Vamos fazer um lual na minha chácara, pra gente se encontrar de novo. Tudo bem?
Laísla – Adoro lual.
Denis – Então, está combinado. Eu telefono para acertar os detalhes.
Laísla – Está bem. Shamê, Shamê! Que pena que já vai você!
William – Foi um prazer tê-lo conosco.
Laísla – O Denis já deve ter reencarnado umas duas mil vezes. Ele tem uma alma tão perfumada.
William – A Dani também usa um perfume muito agradável.
Laísla – O Denis parece que fala como se tivesse aprendido os principais ensinamentos dos Upanishads.
William – O que é isso?
Laísla – São textos sagrados hindus místicos e esotéricos agrupados nos Aranyaka.
William – Hum, hum! Deixa pra lá. Vamos dormir também.
Laísla - Shamê, Shamê! Bom sono pra você!

ATO III

UM ANO DEPOIS

CENA I

(São três cenas entrecortadas por black out. Três diálogos são desenvolvidos na cama. Os casais se separam. William e Laísla, por motivos econômicos. Jorge e Márcio, por diferença social. Fábio e Daniela, por motivações sexuais).
A cama de William e Laísla tem a roda da vida como cabeceira.

William – Laísla, desse jeito você vai perder toda a herança que seu pai lhe deixou.
Laísla – Não se preocupe meu sanchiyamana, o Dalai Lama me disse que eu possuo um bom carma.
William – Isso porque ele não vê o que você faz todo dia. Eu estou dizendo que você vai se arruinar.
Laísla - Meu sanchiyamana, o que importa é o esforço para transcender a liberação definitiva e ter acesso ao nirvana.
William – Laísla, cai na real. Eu vou te fazer algumas perguntinhas básicas. A cada resposta positiva que você der, você subtrai cem mil reais da conta, ok?
Laísla – Tá bem! Mas eu sou péssima com números.
William – Você gosta de dar presente e dinheiro para suas amigas?
Laísla – Sim! Todas elas me convidam para os aniversários delas, dos filhos, dos pais e dos sobrinhos. Eu sou uma pessoa que elas consideram da família.
William – Laísla, nem Roberto Carlos deve ter tantos amigos assim. Mas, vamos lá. Você devolve as fitas de vídeo sempre atrasadas?
Laísla – Sim! Porque eu nunca sei se você já assistiu ou não. Mas eu acho que meu carma é pagar multa. O moço da banca de revista sempre diz, lá vem a garota da multa. Eu já troquei três vezes de carro, para ver se eu acerto a cor. Mas você pode ficar tranqüilo, porque eu já sei que não posso usar vermelho. Foi o carro que me deu mais multa no mês passado.
William – Você compra freqüentemente roupas e objetos que nunca vai usar ou que depois você viu que não era exatamente o que você queria?
Laísla – Sim! Eu já falei. Quando eu chego em casa, vejo que fiz uma burrada para atrasar meu carma. Mas não se preocupe que eu já sei que não posso usar roupas e adereços com penas, porque o galo representa a paixão cega; não posso comer carne de porco, porque representa a ignorância, e nem comprar bolsa e sapato de couro de cobra, porque a serpente representa o ódio.
William – Laísla, meu bem! Você pode torrar a sua herança. Agora, eu não tenho esse desapego ao dinheiro. Além do mais, acredito na iniludível responsabilidade de todos os indivíduos de assumir suas próprias decisões e fazer da liberdade de escolha a condição necessária de uma existência humana autêntica.
Laísla – Você quer dizer que está indo embora e quer metade do meu dinheiro antes que ele acabe.
William – Bem, já que você colocou nesses termos. É isso mesmo. Se você não se importa, vou pedir ao Fabinho para ele providenciar o divórcio.
Laísla – O Fabinho é a pessoa mais sensível que eu já conheci. Acho que ele tem uma alma perfumada.
William – Vou dormir essa noite aqui. Amanhã volto para o meu antigo apartamento. Você se importa de desocupar esta casa, para nós podermos vendê-la mais facilmente? Você pode fazer uma viagem
Laísla – Olha que coincidência, eu sonhei que tinha de fazer uma viagem de navio em torno da África, e depois ia visitar o Tibet. Só que eu não chegava no Tibet. Eu morria de acidente de navio e reencarnava numa vaca.
William – Você deixa seu seguro de vida em meu nome.
Laísla – Você não se importa de pagar com sua vida esse prêmio na próxima encarnação?
William – Tudo bem, não sofro por antecipação.
Laísla - Toda existência é sofrimento.
William – Prefiro que seja toda existência depois da morte. Boa noite, querida!
Laísla – Shamê, Shamê!Bons sonhos pra você!, meu sanchiyamana!

CENA II

A cama de Jorge e Márcio tem uma figura homoerótica na cabeceira.

Jorge – Por que você está com essa cara?
Márcio – Porque eu não sou Michael Jackson, que gasta milhões com cirurgias drásticas para ficar igual a Diana Ross.
Jorge – Estou falando desse biquinho de pouco caso.
Márcio – Você quer saber? Eu já estou pelas astúrias com suas desculpas.
Jorge – Que desculpas?
Márcio – Ah, doutora! Essa estória de sair comigo só para boate, motel e sauna gay. A gente nunca sai para ficar com os amigos. Eu me sinto como papel higiênico ou um boneco inflável, ou mesmo uma cenoura.
Jorge – Márcio, eu estava a fim de namorar e não de morar junto.
Márcio – Você estava a fim de ter alguém para trepar. Mas fique sabendo que eu não sou escarradeira de porra. E a verdade é que você tem vergonha de mim, porque eu trabalho num salão de beleza, moro no Parque São Jorge, e não terminei a minha faculdade de economia doméstica.
Jorge – Não te nada a ver.
Márcio – Está vendo? É só isso que você tem a me dizer. Se você gostasse de mim, se ajoelharia, juraria seu amor eterno e imitaria a Bárbara Straisand como em Nasce uma estrela.
Jorge – Não estou podendo! Basta aquele dia que você me fez imitar a Cher e cantar Dov´É L´Amore.
Márcio – Tá boa! Eu acho que você imita melhor a Madonna. Agora ultimamente você renunciou todas as divas e se recolheu nessa performance de Ivete Sangalo.
Jorge – Eu estou muito confuso.
Márcio – Confusão de cu é rola! Você está com medo de me dizer que encontrou outra pessoa e não sabe como eu vou reagir, só porque eu mordi a testa daquele seu amigo que lhe deu um beijo na boate.
Jorge – Você arrancou um pedaço da testa dele!
Márcio – Muito folgada aquela bicha. Passou por mim e nem me cumprimentou. Chegou em você e deu um beijo. Tá boa que eu ia ficar quieto. E não mude de assunto.
Jorge – Que assunto?
Márcio – Eu serei forte o suficiente para viver sem você. Tenha coragem e saia da minha vida pela porta da frente. Eu não preciso de sua simpatia, nem saber onde você vai dormir sem o meu corpinho, como diz minha amiga Cher.
Jorge – Márcio nós podemos ser amigos.
Márcio – Guarde seu fôlego, porque não importa o que diga, eu não acreditarei e vá andando. Você tem de ir agora!
Jorge – Márcio, você está na minha casa.
Márcio – Então tá, eu vou embora amanhã.
Jorge – Como você quiser.
Márcio – Tá boa!

CENA III


(Fábio e Daniela se separam. Em cima da cabeceira tem uma imagem de diamante reluzente).
Fábio – Dani, eu quero te falar uma coisa, mas não sei como dizer...
Daniela – Você está parecendo gerente de banco quando vai negar um empréstimo. Eles vão falando até convencer você que o banco não tem dinheiro para emprestar, e a culpa é sua por ter deixado sua conta estourada acima do limite por dois meses.
Fábio – É que eu não estou mais segurando a onda...
Daniela – Fabinho, eu fiz um curso sobre mercado de capitais, e a melhor coisa que aprendi é que você é o responsável pelo curso das águas do dinheiro. Então, domine a onda, entendeu?
Fábio – Daniela, eu quero me separar de você, entendeu?
Daniela – Como assim?!
Fábio – É o que eu estou tentando dizer. Não dá mais para continuar casado.
Daniela – Ai que susto, Fabinho! Pensei que tivesse investido na bolsa ou em fundos DI ou pacotes de fundos que deram renda negativa.
Fábio – Então você não se opõe à separação?
Daniela – Depende. Se acertarmos as cláusulas da separação de maneira justa, não tem porque embaçar.
Fábio – Ai, que alívio! Pensei que ia ser difícil...
Daniela – É o que eu sempre falo: a ação cura o medo.
Fábio – E quais são as cláusulas?
Daniela – Só uma coisa antes. Qual o motivo da separação?
Fábio – Acho que eu vou falar logo, porque uma hora você vai descobrir mesmo. Então é melhor que você ouça de mim mesmo.
Daniela – Você é mesmo conservador, gracinha! Tipo que só investe em renda fixa, para não correr risco. E não me diga que gasto muito dinheiro, porque nesse período de um ano e um mês de casamento, fizemos uma cesta de investimentos maravilhosa: compramos dois imóveis, ouro, dólares, poupança, ações e dois automóveis.
Fábio – Não, não tem nada a ver. É que eu estou apaixonado por outra pessoa.
Daniela – Quem?
Fábio – O nome não importa, Dani. Até prefiro que você dê um tempo, para a gente se acertar primeiro. É porque é uma relação homossexual...
Daniela – Nossa! Eu devia confiar mais na minha intuição. Quando você me disse que era virgem aos 25 anos, achei que seu portefólio sexual estava muito a quem de seu portefólio financeiro. Mas, vamos ao que interessa. A guarda do Adam fica comigo até os cinco anos de idade. A pensão, você vai pagar dez salários mínimos, mais plano de saúde, escola, clube, babá e um plano de previdência.
Fábio – Tá, mas por que só até os cinco anos?
Daniela – Porque ele vai ficar com você a partir daí. Não concorda?
Fábio – Não, tudo bem! Mais alguma coisa?
Daniela – Claro! Eu fico com esse apartamento, com a Chácara de São Pedro, o terreno de Ilha Bela e a Ford Ranger.
Fábio – Mas, Dani, o flat da Paulista, o Audi e o apartamento de Angra são as coisas que ainda têm financiamento... E você também tem um Civic...
Daniela – Você acaba de pagar em um ano. E eu sou uma mulher sozinha e frágil, abandonada por um marido que me trocou por um homem. Vou precisar de pelo menos um suporte.
Fábio – Tudo bem, Dani. Mas não precisa se rotular desse jeito. Acho que é melhor a gente manter a discrição o máximo possível, não é?
Daniela – É. E em relação ao patrimônio volátil, dólar, ações e ouro já estão em meu nome. Não quero que você se arrisque nesse mercado. Tá bem?
Fábio – Tá. E as visitas ao Adam. Como ficam?
Daniela – Ficam a vontade. Você pode inclusive pegá-lo aos sábados de manhã e trazê-lo no domingo à noite, porque eu fico livre para tomar chá na Oscar Freire à tarde, ir a vernissage à noite, e ir ao jóquei no domingo. Ah, você pode fazer a petição da separação, porque eu não quero pagar honorários para terceiros, tá bem?
Fábio – Tá bem! Então está tudo certo?
Daniela – Eu só não sei ainda se eu vou precisar de uma pensão para mim. Mas esse é um detalhe que depois a gente conversa. Vamos dormir?
Fábio. Vamos. Boa noite!
Daniela – Boa noite!

ATO IV

CENA I

Marta (despede-se, na direita do palco, com foco exclusivo nela) - Não me casei nem tive filhos. Vaguei pelo mundo e só encontrei o Raimundo, que, de tão limpo, não faz sexo, por achar imundo. Me chama de Marta Raimunda, mas não me acha feia, embora gostosa a minha bunda. Entreguei-me a fé. Missas ao domingo, não perco, pois através de Deus, indivíduos como eu são redimidos e santificados. Trago comigo uma caderneta para zerar meus pecados toda semana. De tão bela e formosa, outra alternativa não tive senão abrir o salão de beleza. Serve especialmente às mulheres que traem os maridos à tarde ou àquelas que se depilam para ir ao ginecologista. Enfim, quero a morte sem um defeito. Sem panos brancos. Nem choro nem velas, somente uma fita amarela. Também não a quero providencial, com um anjo vingador e secretíssimo enfim pousado. Nenhuma mitologia. Nenhuma fruição poética. Como se o mar me aspirasse os ouvidos. Mas súbita e civil, com repartições abertas, comércio, a luz graduada nas altas paredes dum bom dia sonoro. Na minha lápide quero: Aqui jaz Marta Escolástica de Aquino, fria como sempre foi, e a maior protetora das chinchilas.

CENA II

(Jorge e Fábio estão na cama com a figura homoerótica. Beijam-se).

Jorge – Eu te adoro, Fabinho!
Fábio – Eu também. (beijam-se)
Jorge – Às vezes o amor está tão perto da gente, mas parece invisível.
Fábio – É preciso ter coragem para ser o que a gente realmente é. Enquanto nos escondemos com as máscaras das expectativas alheias, nunca existimos, somos invisíveis para nós e para a vida.
Jorge – Nesse ponto, o Márcio era bem visível. Ele dizia sempre: bicha, acorda pra vida, você é mulheríssima! Não adianta fazer essa linha George Michael. Depois bate o desespero, e você vai ser presa num banheiro público fazendo boquete em travesti ou ficar velho e pagar miché pra comer seu cu.
Fábio – A Dani também era muito franca nas colocações dela. Muitas vezes as pessoas pesam que as outras não percebem a verdadeira intenção de uma atitude. Uma vez, um amigo me convidou para ir a um vernissage, onde estariam os ricos e famosos quatrocentões, como se eu ligasse pra isso. Fui porque era um tema legal. Quando cheguei lá, ele me empurrou uma artista plástica que encheu meu saco para comprar três telas. Se a Dani tivesse no lugar do meu amigo, diria simplesmente: querido, vamos a vernissage do MAM, que a Verinha, uma artista plástica, vai estar lá vendendo uns quadros. Eu falei pra ela que ia arrumar uns compradores e ela ia me dar uma comissão de 20%. Você compra três, a Laísla, cinco, a Marta, um e o Denis, dois, tá bem? Prefiro essa atitude direta.
Jorge – Eu sei como é que é, amor. Um dos meus ex também era terrível. Ele só podia achar que eu era burro. Estava sempre inventando viagens, festas, compras. E eu pagava tudo. Chegava nas rodas de amigos ele dizia: Aluguei um apartamento belíssimo no Rio, eu vou passar o reveillon numa cobertura em Copacabana olhando o povinho se queimar de fogos na praia. Olha esse anel, dois mil dólares na Dryzun, tá? Meu bem, estou com reservas para o Marriot em Nova York, para desfilar no gay parade. Aquilo foi me irritando até o dia em que eu disse a ele se quisesse construir os castelos de areia dele, podia ficar a vontade, mas, dali em diante, ele podia ir morar lá e pagar o aluguel com o dinheiro do próprio bolso.
Fábio – Mas são águas passadas, meu amor.(beijam-se) Acho que não dá pra gente se envolver com pessoas de nível cultural ou econômico muito diferente do nosso. Ainda bem que encontrei você.
Jorge – Eu também acho, Fabinho.(beijam-se) Salvei-me das pistoleiras, que só querem relacionamentos para ter as contas pagas. Nesse ponto o Márcio era super legal. Sempre rachamos tudo. O problema é que ele era muito bagaceira. Não tinha um dia que ele não arrumasse um barraco. Estávamos uma vez na fila com amigos para tomar café no Saint´Ettienne, quando umas sapos, que tinham acabado de chegar, pegaram o lugar que seria nosso. Ele disse: se fosse uns gatinhos bonitinhos, eu ia ficar quieto, mas essas caminhoneiras vão sair correndo, porque eu vou cuspir nelas. E gritou com o garçom: pamonheira não precisa pegar fila é? Por que aquelas gordas de botinas sentaram as busanfas de peido de pamonha nos banquinhos da nossa mesa. Ai, foi um barraco. Uma delas gritou: comprou a mesa, bichinha pipoqueira? Ele retrucou: comprei com o dinheiro do milho que você ralou ontem à noite. Foi uma loucura. Acabamos na delegacia, porque os dois se pegaram e foi mesa pra todo lado. Depois, ele reclamou que eu não queria mais sair com ele. Fui preso duas vezes.
Fábio – Meu amor, já passou. Quem sobrevive ao Márcio e a Dani, está a salvo!
Jorge - É verdade, amor. (Beijam-se) Vamos dormir?
Fábio – Vamos!

CENA III

(Denis e Laísla conversam na cama)

Laísla - Meu Rama, adivinhe o que?
Denis – Você vai fazer frango ao curry amanhã.
Laísla - Meu Rama, amanhã eu vou fazer bacalhau ao curry. Não é exatamente comida. Tem a ver com vishnu, encarnação.
Denis – Ai, meu Deus! Não me diga que você está grávida.
Laísla - Meu Rama, eu estou grávida.
Denis – Eu pedi para você não me dizer que estava grávida. Ai, meu Deus. Não pode ser um alarme falso?
Laísla - Meu Rama, o médico disse que eu estou de quatro meses...
Denis – Tudo isso? E você não tinha notado nada?
Laísla - Meu Rama, é a primeira vez que eu engravido. Foi minha mãe que notou.
Denis – E eu pensei que você estava engordando por causa da idade. Até um dia eu comentei com o Fabinho que você estava se tornando uma matrona de Ticiano...
Laísla - Meu Rama, é mais especial do que você pensa. Talvez a gente possa receber Krishna e Rama, não é formidável?
Denis – Ai, meu Deus! Espera um pouco. Não me diga que são gêmeos.
Laísla - Meu Rama, são gêmeos.
Denis - Eu pedi para você não me dizer que não eram gêmeos. Dez filhos. Agora eu vou ser pai de dez filhos.
Laísla - Meu Rama, meu carma é casar com pais de dez filhos. O William também tem dez filhos.
Denis – Mas o William é doador de esperma. Ele não tem as responsabilidades que eu tenho. Se a Juíza souber, vai mandar me prender.
Laísla - Meu Rama, nós podemos convencer as suas ex-mulheres de você ficar com a guarda de seus filhos. Ai, todos poderão morar conosco, o Anderson, o Alexandre, o André, o Augusto, o Antony, o Alfredo, o Aloísio, o Adriano, e os nossos caçulas Atman e Arjuna.
Denis – Meu amor, Atman e Arjuna são nomes de homem?
Laísla - Meu Rama, os seres humanos não tem sexo. Somos todos homens e mulheres ao mesmo tempo.
Denis – O Fabinho que o diga... Mas, meu amor, eu não pedi para você tomar anticoncepcional?
Laísla - Meu Rama, eu também perguntei isso ao médico. Ai que eu me lembrei que no dia do casamento, com aquela agitação toda, eu não tomei.
Denis – Tá bem, meu amor. Desculpe-me. É que eu sou tão traumatizado com ter filho de baciada, que nem pensei em você. Parabéns! Vamos criar nossos dez filhos juntos.
Laísla - Meu Rama, eu sempre quis essa abnegação eterna. Ainda bem que não é o William. Ele poderia concordar em fazer experiência científica com nossos filhos.
Denis – Dez filhos...
Laísla - Meu Rama, você é um ser privilegiado. Tudo isso é para você aprender que o homem pode alcançar a libertação, desde que, como sujeito da ação, você seja desapegado no agir, que atue sem se preocupar com os frutos da ação. O desapego é a expressão de uma não identificação com o ego e produto do autoconhecimento e da auto-realização, que é a finalidade última: descobrir-se como partícula de um Eu divino, que sabe que tudo que ocorre nesta dimensão é fruto de uma ilusão na qual vivem os que se identificam com o corpo, como os homens da caverna de Platão identificados com suas sombras projetadas na parede.
Denis – Ok! Eu li o Mito da Caverna. E isso me lembra que o útero é uma caverna, da qual saímos para ver o verdadeiro mundo... Você tem certeza que não põe algo mais naquele chá de lan lan?
Laísla – Talvez, meu Rama. Tenha bons sonhos!

CENA IV

(William e Daniela conversam na cama)

William – Dani, você vai mesmo dar a guarda do Adam para o Fabinho?
Daniela – Vou. A Psicóloga e a Assistente Social disseram que o Jorge tem mais jeito pra ser mãe do que eu. Acho que elas não entenderam quando eu falei que já tinha acertado com o Fabinho a respeito de a guarda do Adam ficar com ele, quando completasse cinco anos.
William – Pensei que fosse difícil.
Daniela – Não. O Adam adora o Fabinho. O Jorge tem mesmo jeito de mãe. E além do mais, agora é que começam as despesas com o Adam. Nesse tempo todo, economizei oito salários por mês da pensão alimentícia.
William – Dani, eu ainda não entendi sua estratégia. Ao mesmo tempo que você economiza, você investe muito. Não consigo explicar as diferenças entre o dinheiro economizado e o capital gerado. Acho que a decisão de investir em bens de capital independe da decisão de poupar. Você não acha?
Daniela – É muito simples. O dinheiro economizado é o que vem dos outros. Isso você soma com os bens que você recebe, presentes, herança, partilha etc. Quando está em seu poder, você tem de decidir o que vai fazer com ele. Aí que entre sua capacidade de gerar mais capital. Por exemplo, nós vamos vender o seu carro, que já tem três anos, e aplicar o dinheiro em ações, que é volátil, mas rende muito num prazo de cinco anos.
William – Então eu vou usar o seu Honda Civic. E por falar em estratégia, acho que podemos montar uma consultoria de suporte financeiro para pessoas em geral.
Daniela – Ótima idéia! Podemos ganhar muito dinheiro ensinando a pessoas a alcançar o sucesso, riqueza e status.
William – É. Podemos ensinar os executivos a habilidade de fazer as coisas prontamente e com precisão; desenvolver um ritmo rápido em prol da eficiência.
Daniela – Exato! Sim, tornaremos essas pessoas em indivíduos sem dúvidas sobre si mesmas, ungidas, benfeitoras da humanidade. Pessoas de talento acima da média, elegantes, sofisticadas, realizadoras e competitivas.
William – Sim! Elas ficarão absolutamente confiantes de sua grandeza e excepcionalidade. Serão admiradas e possuidoras de um inabalável otimismo.
Daniela – Elas ganharão a convicção de que não existe nada que elas não possam fazer e ninguém que elas não possam vencer.
William – Elas vão ter de abandonar os sentimentalismos e adquirir um raciocínio calculista.
Daniela – Correto. Elas têm de aprender a serem organizadas, práticas, funcionais e oportunas. Ter tudo sob controle. Serão congruentes em suas reações emocionais, bem como lealdade e capacidade para manter envolvimentos emocionais sistemáticos.
William – Vamos formar pessoas orientadas para o mercado. O que você acha de convidar o Lair Ribeiro para ser nosso sócio?
Daniela – Não gosto de sócio. Com você, eu somo. Com os outros, não quero dividir.
William – Tudo bem! Amanhã, colocaremos tudo no papel e traçaremos as nossas metas.
Daniela – Adoro planificar e por em prática. É melhor do que fazer sexo. Ai! Só de pensar me sinto gigante.
William – Ah! Podemos usar aquele livro Desperte o Gigante Interior e Poder Sem Limites, para substituir o Lair Ribeiro.
Daniela – Melhor coisa! Vamos ganhar muito dinheiro.
William – Boa noite, querida!
Daniela – Boa noite, querido!

CENA V

Márcio (despede-se, na esquerda do palco, com foco exclusivo nele) – Vida de homossexual é como jogo acumulado de loteria, todo mundo tem vontade de arriscar, mas tem inveja dos vitoriosos ou fica curioso para saber quem é ele. Sem falar dos palpites e dos achismos: - acho que o Michael Jackson é gay; - não, ele apenas não teve infância. Tá boa! E, no mais, resolvi ter relacionamentos abertos. Sexta, fui no aniversário do Marcelão e acabei na cama com o Eron, que me disse estar passando por uma fase light, tipo sem compromissos – uma maneira sutil de dizer que o sexo foi uma merda e que vai procurar outra biba. Tá boa! Sábado, encontrei o Virgílio na Level. Dançamos muito até às 5:00h da manhã. Fomos pro apto dele. Eu ainda estava colocadíssimo. Tinha tomado Exctasy. Ele tinha tomado anfetamina. Não tinha nada que parasse o tesão dele. Fumei até dois baseados, mas não dei conta. Teve uma hora que eu disse: bicha, eu vou pra casa, porque minhas férias começam amanhã, e eu vou pro Maranhão. Tá boa! Não agüentava mais. Só sei que este mundo está podre, como um dia minha mãe me disse: Carlos Márcio Ulianov, você nasceu em uma sociedade que, se ainda não está morta, fede. Fede à bosta de regimento, fede a batinas de padres, fede a fábricas que lançam de suas chaminés a alma de seus operários, fede ao péssimo hálito de seus discursos, fede à adulação de seus elogios falsos, fede às mais imundas maquinações políticas, fede à cultura de universidade, fede a genocídio, fede a misérias, fede a torturas, fede a explosões, fede a pactos. Então, seja verdadeiro com você mesmo e perfume sua alma, senão vai acabar fedido. Tá boa! Eu sei que esse mundo é uma luta dos exploradores contra os explorados. Boa noite, Mãe!

FIM

Hermano Leitão

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