02/12/2011
Shakespearando

 

 

 

 


Shakespearando

Hermano Leitão

2011

Personagens:

Hamlet, Príncipe da Dinamarca;
Ofélia, virtual futura noiva do Príncipe da Dinamarca;
Iago, Presidente do Banco Mundial;
Cleópatra, Presidente do Fundo Monetário;
Antônio, Imperador da Itália;
Rosalina, Ministra das Finanças da França;
Biron, Ministro das Finanças da Espanha;
Shylock, Ministro das Finanças da Alemanha;
Rosalinda, Ministra das Finanças do Reino Unido;
Falstaff, incógnito.

Shakespearando

     ATO I

Hamlet recebe os integrantes da RCE (Reunião de Cúpula Européia) que acontece na Dinamarca sob sua Presidência assessorado por Ofélia; Antonio representa a Itália; Biron representa a Espanha do Rei de Navarra; Rosalina representa a França; Cleópatra representa o Fundo Monetário; Shylock representa a Alemanha; Falstaff e Rosalinda representam o Principe Hal da Inglaterra; Iago representa o Banco Mundial.

     Cena I
(Falstaff está disfarçado de serviçal – sempre abre a porta)

Ofélia – Hamlet, veja a manchete do jornal: “Há algo de podre no reino da Dinamarca”.
Hamlet – Voce está menstruada?
Ofélia – Não, mas eu quero falar com você sobre isso mais tarde. O jornal fala de outra coisa.
Hamlet – O quê?
Ofélia – O editorial diz que essa Reunião de Cúpola Européia que acontece nesse final na Dinamarca não chegará a uma proposta concreta para por fim a crise financeira da Zona.
Hamlet – Se depender de mim, eles têm razão. Não fazemos parte dessa Zona.
Ofélia – Também acho, porque estou esperando uma proposta concreta sua há tempos.
Hamlet – Ofélia, os Cristãos estão esperando Cristo há mais de 2.000 anos e não reclamam. E eu já te falei pra entrar para um convento.
Ofélia – Hamlet, você tem de assumir suas responsabilidades!
Hamlet – Ofélia, meu pai acabou de morrer e minha mãe viajou com meu tio para as ilhas gregas, logo agora que inventaram essa Reunião de Cúpola aqui. Você sabe que não tive como recusar ao pedido de Iago. Ele é Presidente do Banco Mundial. Dá um tempo!
Ofélia – Mas se a gente aproveitasse essa reunião com tantas celebridades para eu aceitar seu pedido e anunciar nosso noivado?
Hamlet – Ofélia, não! Eu só abro a boca quando tenho certeza. (a campanhia toca). Vai ver quem é.
     Cena II
(Falstaff abre a porta. Ofélia recepciona Iago)

Ofélia – Bem vindo! A quem temos a honra?
Iago – Sou Iago, Presidente do Banco Mundial. Muito prazer!
Ofélia – Muito prazer! Sou Ofélia, virtual futura esposa do Principe da Dinamarca. Por favor, entre. O Príncipe Hamlet o aguarda.
Iago – Obrigado!
Hamlet – Presidente, que prazer!
Iago – Caro Principe, o prazer é todo meu!
Ofélia – Vou deixá-los a sós. Tenho um vestido de noiva para provar. Com licença, cavalheiros.
Iago – Tem-na toda, senhorita Ofélia.
Hamlet – Se ouvir a campanhia, venha recepcionar os convidados, por favor. E deixe o vestido para outra hora,,,
Ofélia – Até já!
(sai Ofélia)
     Cena III
(Falstaff serve vinho)

Iago – Ainda virgem?!
Hamlet – Como sabe?
Iago – Cabelos longos bem amarrados, voz grave, mãos retorcidas na altura do ventre, seios duros, nádegas tensas, e a primeira coisa que procurou em mim foi minha barguilha.
Hamlet – Nossa, que percepção!
Iago – Que nada! A Europa inteira comenta que o nobre Principe a levará a loucura se não comparecer ao leito dela com brevidade.
Hamlet – Fofoqueiros! Não se gasta mais com espiões depois que inventaram a internet! Logo saberei pelas redes sociais notícias de minha mãe.
Iago – Acho que seu tio não pretende fazer segredo do quanto aproveitará os prazeres na terra de Afrodite.
Hamlet – Puta merda! Minha mãe é uma vaca!
Iago – Calma, Principe! Faz parte... Eu mesmo tive um trabalho imenso para impedir que Otelo comesse Desdemona e desfizesse o casamento deles, mas deu em merda. De tanto ciúme, ele estragulou Desdemona ainda virgem e depois se matou quando soube que ela não o tinha traido.
Hamlet – Que bosta!
Iago - Ainda bem que consegui escapar para Milão e ser nomeado Presidente do Banco Mundial.
Hamlet – E essa Reunião Cúpola? Vai discutir o quê?
Iago – Como evitar um caos financeiro pelo mundo.
Hamlet – E como é que se evita isso?
Iago - O negócio é o seguinte: a Espanha está atolada em dívidas porque o rei de Navarra e os funcionários públicos passaram três anos só estudando filosofia, o povo caiu na esbórnia e estourou o limite do cartão de crédito. Estão devendo para a França e para as bandeiras de cartão de crédito.
Hamlet – E não dá para fazer um empréstimo para a coroa espanhola?
Iago – O problema é que eles não tem garantia pra dar. E também a Itália está devendo tubos de dinheiro para a Alemnha, que poderia socorrer a Espanha, mas aceitou como garantia do empréstimo o pinto do Imperador Antônio.
Hamlet – O quê? Antônio vai ter de cortar o pinto fora se a Itália não pagar a dívida?
Iago – Foi a cláusula contratual que o Ministro alemão Shylock exigiu. Coisa de judeu. Vai entender!
Hamlet- Eu nunca entendi essa tara dos judeus alemães por prepúcio. Dizem que os rabinos cortam a pele e fazem churrasco...
Iago – Caro Príncipe, se eu lhe contar o que rola nas festas do Bunga Bunga lá na Itália tenha certeza que achará churrasquinho de prepúcio um aperitivo.
(toca a campanhia)

     Cena IV
(Falstaff abre a porta-  Ofélia desce as escadas e corre até a porta – chega Cleópatra)

Ofélia – Seja bem vinda! Sou Ofélia, virtual futura noiva do Príncipe Hamlet.
Cleópatra – Obrigada e muito prazer! Sou Cleópatra, Presidente do Fundo Monetário.
Ofélia – Por favor, entre. Os homens anciosamente a aguardam.
Cleópatra – Adoro homens anciosos! Obrigada!
Ofélia – Por nada! Ah, se tiver um tempo, gostaria de sua opinião sobre o meu vestido de noiva.
Cleópatra – Claro, querida! Terei prazer em opinar se for do seu desejo.

     Cena V
(Falstaff serve vinho)

Ofélia – Hamlet, Cleópatra, Presidente do Fundo Monetário.
Hamlet – Muito prazer, Cleópatra! Não sei se se conhecem...
Cleópatra – Já nos conhecemos em Calcutá. Fui a posse dele no Banco Mundial. Como vai, querido Iago?
Iago – Melhor agora, cara Cleópatra!
Ofélia – Hamlet, Cleópatra irá aos meus aposentos para opinar sobre o meu vestido de noiva. Tratem de não aborrecê-la com esses assuntos de Estado, senhores!
Hamlet – Suba, Ofélia. Daqui a dois minutos, eu vou aborrecer voce com os assuntos do convento Santa Madalena.
Ofélia – Com licença!
(sai Ofélia)
     Cena VI
(Flastaff serve vinho)

Cleópatra – Ainda é virgem!
Hamlet – A fofoca já chegou no Egito?
Iago – Não, meu caro Príncipe. Ela olhou para os seios de Cleópatra, que já marcam 20 para as 4.
Cleópatra – Vou colocar silicone mês que vem, queridinho, e não será para os seus olhos.
Iago – Sempre afiada para os desafios da hora!
Cleópatra – Enquanto a faca tiver fio, a cobra, veneno, e eu tiver a língua úmida, estarei a salva.
Iago – Amole a faca, poupe veneno e excite bastante suas papilas gustativas, porque teremos o Antônio de novo pela frente.
Hamlet – Ele está na iminência de perder o pinto!
Cleópatra – Não posso dizer que sentirei falta.
Hamlet – De Antonio ou só do pinto?
Cleópatra – De nenhum. Não se sente falta daquilo que não causou prazer ou dor. A única breve vez em que estivemos a sós, ele estava furioso comigo.
Hamlet – E qual era o motivo da fúria?
Cleópatra – Mandou-me um mensageiro com uma carta na qual explicava que seu casamento com Otávia era pura conveniência politica e que muito me amava. Mal pude prestar atenção no conteúdo da carta. O mensageiro era um jovem de 16 anos já com um porte de gladiador. Antonio ficou enfurecido porque  hospedei o belo rapaz por três dias.
Iago – Soube que Otávia morreu de causa desconhecida. Aventaram que teria sido veneno.
Hamlet – Lembrei-me que tenho de repassar com Ofélia os preparativos para bem recepcionar os integrantes dessa Reunião de Cúpola, a começar pelo vinho. Fiquem à vontade e de agora em diante vos passo a incumbência de recebê-los. Dêem-me licença.
Cleópatra – Obrigada, querido Príncipe! Nós realmente temos uma agenda extensa.
Iago – Obrigado, caro Príncipe. Nunca me senti tão à vontade.
(sai Hamlet)
     Cena VII
(Falstaff sai – volta com mais vinhos e serve)

Cleópatra – Iago, recebi seu preclaro relatório sobre o objetivo dessa Reunião de Cúpola e a proposta de promover uma nova ordem econômica para a Europa pareceu-me um propósito tão ambicioso quanto seu formulador.
Iago – O buraco é mais em baixo, cara Cleópatra. Essa proposta é apenas uma manchete para os jornais de todo mundo se divertirem. O que eu pretendo, com os auspícios de seu Fundo, é saber no colo de quem vai cair a bomba da dívida de 3 trilhões dessa zona, e como podemos fazer do limão um delicioso acompanhamento para uma frozen marguerita.
Cleópatra – Muito barulho por nada! Basta a Alemanha entrrar no meu Fundo com um sólido depósito em dinheiro e comprar ações de seu Banco Mundial. Emprestamos a Itália e a Espanha com o dobro da taxa que a Alemanha nos cobra, e acrescentamos comissões de 6% para nós.
Iago – A questão, minha cara, é que se fosse apenas a dívida pública de Espanha e Itália seria fácil. Mas o problema é que os bancos desses dois e da Inglaterra estão atolados de títulos podres, ou seja, o cobertor está curto.
Cleópatra – Meu querido, com os empréstimos, ao invés de eles pagarem a dívida pública, salvam os bancos. Um pouco de inflação refreia as pretenções dos agitadores de plantão. Vamos receitar o remédio do Fundo Monetário.
Iago – Arrocho salarial, aumento de impostos, corte de aposentadoria e dispensa de funcionário público só cola em países exóticos. Não dá! Mas no seu Fundo tem uma coisa que pode ficar mais atrativo.
Cleópatra – Como é que meu Fundo pode ficar mais atrativo?
Iago – A gente privatiza tudo e elege uma moeda de transação comercial, ou seja, não se mexe no valor dos salários e aposentadorias, e adotamos o Danish só para ricos e empresas AAA, e firmamos a paridade 4 Euros para 1 Danish.
Cleópatra – Vamos ter de usar armas ou veneno para aprovar isso?
Iago – Só se for extremamente preciso, mas acho que o medo de o mundo acabar é suficiente.
Cleópatra – Realmente, a necessidade é a rainha das pragas.
Iago – É isso. Agora, vamos fazer o seguinte: primeiro promovemos encontros bilaterais entre França e Espanha; Inglaterra e Itália, e Alemanha e Dinamarca. Eu coordeno as conversas entre Rosalina da França e Biron da Espanha. Vocè coordena as conversas entre Rosalinda da Inglaterra (Reino Unido) e seu querido Antonio da Itália.
Cleópatra – E as conversas entre Alemanha e Dinamarca?
Iago – Deixemos o Príncipe Hamlet e Ofèlia encherem a cabeça de Shylock. Ele estará no ponto quando propusermos o acordo dessa Reunião de Cúpola.
(toca a campanhia)

     Cena VIII
(Falstaff abre a porta - Ofélia desce e recepciona Rosalina)

Ofélia – Seja bem vinda! Sou Ofélia, virtual futura noiva do Principe Hamlet.
Rosalina – Muito prazer! Sou Rosalina, Ministra das Finanças da França.
Ofélia – Por favor, entre. Os banqueiros a aguardam os endividados.
Rosalina – Obrigada, querida!
Ofélia – Por nada! Ah, deixe-me roubar Cleópatra. Preciso levá-la aos meus aposentos.
Rosalina – Claro, querida! Um conselho: não beba!
Ofélia – Não, claro que não! Pode estragar meu vestido.
Rosalina – Certamente!
     Cena IX
(Falstaff serve vinho)

Iago – Que prazer, cara Rosalina!
Rosalina – Como vai, Iago?
Iago – Feliz em revê-la!
Cleópatra – Quanto tempo, querida!
Rosalina – Sempre airosa, querida!
Ofélia – Se não se incomodam, gostaria de furtar Cleópatra de vossas airosas companhias.
Rosalina – Sem problemas, querida! Meus olhos repousarão na perspicácia de Iago.
Iago – Ofélia, seria uma providência que eu mesmo solicitaria. Quanto à perspicácia, cara Rosalina, é atributo todo seu!
Cleópatra – Então vamos, querida. Estou anciosa para ver seu véu de noiva.
Ofélia – Obrigada! Com licença.

     Cena XI
(Falstaff serve vinho)
Iago – Fico feliz em começar a agenda da Reunião de Cúpola com parte importante da solução dessa grave crise.
Rosalina – A França sempre esteve disposta a colaborar para um desfecho rápido como um piscar de olhos e eficaz para todos como um colírio em dias secos. O que não dá é bater palmas para os flamencos dançarem à luz do dia.
Iago – Minha cara, a Espanha não tem condições de quitar as dívidas a curto prazo. Temos de encontrar uma estratégia para que a França seja recompensada com os fundos disponíveis.
Rosalina – Em hipótese alguma a França aceitará fundos podres!
Iago – Mas eu estou falando de um fundo limpo. Cleópatra passará cheque de seu fundo, caso seja essa a exigência francesa.
Rosalina – Podemos ver o fundo de Cleópatra. E do que depende disso?
(toca a campanhia)
Iago – Vou atender a porta.
(Falstaff abre a porta -  Iago recebe Biron)

     Cena XII
(Falstaff serve vinho a Rosalina)

Iago – Meu caro, Biron! Que coincidência agradável!
Biron – Meu caro, Iago! Que prazer! E por que coincidência?
Iago – Seu nome estava na ponta de minha língua para responder uma pergunta quando voce tocou a capanhia.
Biron – Espero que seja um bom preságio, porque o Rei de Navarra me incumbiu de uma tarefa um tanto espinhosa nessa Reunião de Cúpola.
Iago – Com certeza não será muito trabalho de Cúpola por nada. Venha, entre, a Ministra da França já chegou e podemos começar a primeira reunião bilateral.
Biron – Aos ossos do ofício!
     Cena XIII
(Falstaff serve vinho a todos)

Iago – Chegou quem estávamos falando!
Rosalina – Vejo que foi em boa hora!
Biron – Que recepção maravilhosa! Obrigado!
Iago – Meus caros, um brinde a essa inauguração!
Rosalina – Aos bons presságios!
Biron – A Reunião de Cúpola!
Iago – Bem, vou deixá-los a sós para delimitarem as pretensões de suas respectivas coroas. E também preciso encontrar o Principe Hamlet...
Rosalina – Esteja à vontade, Iago.
Biron – Por mim, prefiro as companhias femininas.
Iago – Espero que tenha trazido lenços nos bolsos. Com licença.

     Cena XIV
(Falstaff serve vinho)

Biron — Certa vez não dançamos em Brabante?
Rosalina — Certa vez não dançamos em Brabante?
Biron — Tenho certeza.
Rosalina — Então por que essa pergunta inútil?
Biron — Não deveria ser tão vivaz.
Rosalina — Você é o culpado, esporeando-me desse jeito.
Biron — Cansa depressa o espírito ligeiro.
Rosalina — Mas, antes joga ao solo o cavaleiro.
Biron — De você ao coração direi primores.
Rosalina — Ficarei muito contente em conhecê-lo.
Biron — Desejei que me visse suspirar.
Rosalina — Está doente o bobinho?
Biron — Sofro do coração.
Rosalina — Coitado! Uma sangria.
Biron — Algum bem lhe faria?
Rosalina — Entendo de curar.
Biron — Picai-o com o olhar.
Rosalina — No ponto; com faca afiada.
Biron — Deus a faça ajuizada.
Rosalina — E a você, de muito preço.
Biron — Depois vos agradeço, se você conseguir que a França perdoe a dívida da Espanha.
Rosalina – Aceitar um calote a seco?
Biron – Uma moratória!
Rosalina – Prefiro os fundos limpos de Cleópatra. Meu caro Biron, não venha com essa conversa de cerca Lourenço. Eu já tinha ouvido muitas vezes falar de você, bem antes de tê-lo conhecido. A grande boca do mundo o proclama zombeteiro de enormes cabedais e frases finas que atira contra todos que caem ao alcance do seu espírito. Sua proposta levaria a falência todos os bancos da França.
Biron – E não é esse o meu trunfo?
Rosalina – É um jogo por demais perigoso para quem está com a corda no pescoço. Abra seu olho.

    Cena XV
(entram Iago e Hamlet)

Iago – Então, chegaram a um denominador comum?
Biron – Não, chegamos a um dilema!
Hamlet – Ser ou não ser? Eis a questão!
Biron – Não, Príncipe Hamlet: pagar ou não pagar? Eis a questão!
Rosalina – Ele quer saber o que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras para tentar resistir-lhes?
Hamlet – É ai que bate o ponto!
Iago - Quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos?...
Biron - A agonia do amor não retribuído?...
Iago - A implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente?
Hamlet - Se tivesse em suas mãos obter sossego com um punhal?
Iago - Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemer, se não por temer algo após a morte?...
Hamlet - Terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou...
Biron - Que nos inibe a vontade, a fazer que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados?
Rosalina – A consciência faz de todos covardes.
Biron – Ousemos então, Rosalina!
Rosalina – Quero ver primeiro se os fundos de Cleópatra estão limpos.
Iago – É muito justo, afinal essa Reunião de Cúpola apenas começou e dependemos de um consenso em grupo.
Hamlet – Podemos ir à biblioteca para ver as cotações do mercado hoje e consultar os fundos.
Iago – Perfeito, meu caro Príncipe! Talvez seja possível um threesome, uma triangulação.
Rosalina – Era o que tinha em vista.
Biron – Eu também apreciaria tentar a três.
(saem Hamlet, Biron e Rosalina - toca a companhia)

     Cena XVI

(Falstaff abre a porta - descabelada, Ofélia desce correndo as escadas acompanhada de Cleópatra –  recepciona Rosalinda)

Ofélia – Seja bem vinda! Sou Ofélia, virtual futura noiva do Principe Hamlet.
Rosalinda – Muito prazer! Sou Rosa Linda, Ministra das Finanças do Reino Unido.
Ofélia – Por favor, entre. Por um momento, eu pensei que era o buffet da cerimônia noturna.
Rosalinda – Obrigada, linda libélula! Adorei os seus cabelos!
Ofélia – Foi idéia de Cleópatra...
Rosalinda – Só podia ser!
     Cena XVII
(Falstaff serve vinho)

Cleópatra – Minha linda fada da floresta de Arden! (abraça)
Rosalinda – Minha linda boneca do Egito! Que enorme prazer! (beija demoradamente)
Ofélia – (Para Rosalinda) Você também está noiva?
Rosalinda – Não, minha lindinha. O Orlando está me enrolando, mas eu perdi a minha virgindade faz muito tempo. (beija-a)
Iago – Rosalinda, prazer em revê-la. Sua presença nssa Reunião de Cúpola é imprescindível.
Cleópatra – Iago quer salvar o pinto de Antonio, querida!
Rosalinda – O prazer é todo meu, lindo Iago (beija-o). Houve um tempo em que nos preocupávamos em salvar nossaa cabeça.
Cleópatra – Vão as cabeças do mesmo jeito, querida.
Iago – Ofélia, você não quer me mostrar seu vestido de noiva? Adoraria vê-lo!
Ofélia – Claro! Não vejo a hora de mostrar meu buquet  pra todo mundo.
Rosalinda – Não se anime muito, querida. Iago só vai olhar, ele não entende nada de grinaldas.
Iago – Vamos, Ofélia! Se ficarmos mais um pouco, perderemos nossas roupas.
(saem Iago e Ofélia)

     Cena XVIII
(Falstaf serve vinho)
Rosalinda – Quem o vê falando assim, nem acreditaria que é um lobo em pele de cordeiro.
Cleópatra – Os lobos eliminam-se uns aos outros quando brigam por território, minha linda, assim como os homens. Por isso, eu prefiro cultivar meu ninho de cobras por toda a eternidade, a ter homens por mais de tres dias em meu leito.
Rosalinda – Já eu prefiro deixá-los soltos na minha floresta. O prazer da caça é inesgotável. E eu estou aqui para caçar, minha rainha.
Cleópatra – Eu estou aqui para me garantir, minha fada! Graças  ao Egito, que é a única abertura do ocidente para controlar o petróleo árabe - que você tanto quer – sou Presidente do Fundo Monetário. Se quiserem fazer meu fundo jorrar o líquido precioso, vão ter de pagar pra ver.
Rosalinda – Adoro quem mostra logo as fichas que tem para jogar!
Cleópatra – Então, vamos combinar nosso jogo?
Rosalinda – Claro, meu amor! O Reino Unido jamais será vencido. O que você tem em vista?
(Falstaff sai para buscar vinho)
Cleópatra – Temos de anular a dívida da Itália com a Alemanha e convencer Hamlet a aceitar o Danish como moeda de transações na Zona, sem extinguir o Euro.
Rosalinda – E aonde a gente consegue o pó mágico para fazer isso?
Cleópatra – Nesse meu anel, amiga, e, por coincidência, tenho outro que também é muito conveniente para derramar pó numa taça de vinho. (coloca o anel no dedo de Rosalinda) Eu sirvo Shylock, e você serve Iago.
Rosalinda – Isso é veneno?
Cleópatra – Não, querida. Consegui esse pó com Frei Lourenço. Garantiu-me que ao ingeri-lo misturado ao vinho, logo pelas veias corre um humor frio, de efeito entorpecente, sem que o pulso continue a bater em seu curso normal. O corpo todo fica da criatura fica teso, frio e rígido tal morto por vinte e quatro horas, para depois acordar de um doce sono. Um dia é o tempo que precisamos.
Rosalinda –  24 horas. E por que eu faria isso, amiga rainha do deserto?
Cleópatra – Porque o Reino Unido quer petróleo que eu controlo, e porque, enquanto os belos estiverem adomercidos, usaremos nossa informação cambial privilegiada para investirmos toda nossa fortuna em Danish e sair daqui quatro vezes mais poderosas, linda fada.
Rosalinda – Entendi. Quem se capitalizar primeiro em Danish terá poder de controlar todo o mercado mundial. É um golpe perfeito contra a Alemanha que detém 40% dos títulos ingleses em Euro, que virarão água.
Cleópatra – Simples assim! Que Shylock durma e seu cachimbo caia!
Rosalinda - Só mais uma pergunta, minha linda serpente do deserto. Por que Iago?
(Falstaff volta)
Cleópatra – Por dois motivos, minha fada madrinha. Primeiro, só Iago tem capacidade de anular o contrato de Shylock com Antonio. Assim, ele não perderá o pinto, porque a garantia é um pedaço de sua carne. Segundo, não quero perder Antonio para Iago.
(toca a campanhia)

     Cena XIX
(Falstaff abre a porta - Cleópatra recebe Antonio – Falstaff serve vinho a rosalinda)

Cleópatra – Meu querido, Antonio!
Antonio – Minha rainha, que bom vê-la!
Cleópatra – Pena nos encontrarmos em situação tão aflitiva, Antonio.
Antonio – Parece que os céus estão na iminência de cair sobre minha cabeça.
Cleópatra – Salvaremos sua cabecinha, meu querido!
Antonio – Tomara! Meu pai sempre dizia:  cabeça que não regula, o bolso é quem paga.
Cleópatra – Ah, eu sinto muito por Otávia! A morte trágica sempre nos causa dor maior.
Antonio – Incompreensível!
Rosalinda – Antonio, prazer em revê-lo!
Antonio – Augusta Rosalinda, o prazer é todo meu!
Cleópatra – Querido, ainda não entendi porque você penhorou a própria carne nesse contrato com a Alemanha.
Antonio – Para salvar Roma. Os Mercadores de Veneza estão em polvorosa, porque meu pinto em nada servirá para levantar os fundos que precisam.
Rosalinda – Sentemo-nos, queridos.
Antonio – Shylock tem ódio de mim e aproveitou-se da situação para vingar-se. A Alemanha está melhor que todos nós e cobrará um preço alto. Não tenho saída.
Cleópatra – Como a situação da Itália chegou a esse ponto?
Antonio – A dívida pública saiu inteiramente de nosso controle. Os salários dos funcionários públicos levam quase 60% da arrecadação de impostos; 50% da população recebem bolsa família; as aposentadorias geram um deficit mensal de 200 bilhões; as licenças gestantes de dois anos consomem as folhas de pagamento; e quando os trabalhadores voltarem das férias de 90 dias, não teremos dinheiro em caixa para pagar os salários.
Rosalinda – E quem trabalha na Itália?
Antonio – 5% da população. Foi a classe média que sobrou. E os banqueiros ainda querem que o Estado promovam uma recapitalização de seus fundos com dinheiro público.
Rosalinda – E quanto é a dívida com a Alemanha?
Antonio – 800 bilhões.
Rosalinda – E Shylock só quer seu pinto?
Antonio – É a garantia contratual: cortar na carne.
Cleópatra – Querido, não se preocupe. Iago designou o Principe Hamlet e Ofélia para as tratativas com Shylock. Tudo há de se resolver. Confie!
Rosalinda – Com certeza! E hoje já existem implantes perfeitos. Vi uma prótese que parecia tão natural que quase me enganou.
Cleópatra – Isso é questão de gosto, querida.
Rosalinda – Realmente, é muito sem gosto...
Antonio – Parece que a Itália é a peça chave para esse embroglio.
Rosalinda – Não exatamento, querido. Se a Espanha não pagar a França, a França não pagará o Reino Unido, que dependerá da Alemanha para comprar títulos da dívida britânica, que depende do seu pagamento para nos socorrer. E confesso que, nesse ponto, seu pinto não vale nada.
Cleópatra – Acudirei com meu fundo e, considerando o aperto, Iago também proverá uma linha para substituir essa garantia.
Antonio -  Assim espero.

     Cena XX
(Chega Iago – Falstaff serve vinho)

Iago – Rosalinda e Antonio! Só essa reunião de Cúpola para me dar esse enorme prazer! (beija o anel de Rosalinda)
Rosalinda – Sempre adorável e galante! (toma-o em seus braços e beija-o na face)
Antonio – (de braços abertos, exclama) Meu querido cavaleiro, Iago!
Iago – (desprende-se rápido de Rosalinda e abraça forte e demoradamente Antonio) Meu amado veneziano, quanto tempo!
Rosalinda – Vejo que certas coisas não mudam nunca...
Cleópatra – Vamos fazer um brinde ao nosso quarteto!
Rosalinda – Foursome!
Antonio – Foursome!
Cleópatra – Foursome!
Iago – Whatever!

     Cena XXI
(Chega Hamlet – Falstaff serve vinho)

Hamlet – Rosalinda! Antonio! Que parte da festa eu perdi?
Rosalinda – Hamlet, ajude-me a transformar esse armagedom em algo agradável, meu Principe! (abraça e beija-o)
Hamlet – Minha linda Rosa linda! Só voce poderia trazer a essa reunião de Cúpola ares dionisíacos.
Antonio – Nobre Hamlet, o vinho foi providencial para amainar esse encontro!
Cleópatra – Sempre defendi o culto a Bacco!
Rosalinda – Quero fazer um brinde a noss zona, a  nossa Zona Européia!
Cleópatra – A nossa zona!
Hamlet – A nossa zona!
Antonio – A nossa zona!
Iago – Whatever! E por falar em grupo, peço a vocês que me acompanhem para nos juntarmos a Biron e Rosalina, a uma para contagiá-los com essa energia, e, aoutra, para deixar nosso Princípe livre a espera de Shylock.
Rosalinda – Quanto mais energia, melhor.
(seguem para a biblioteca)

     Cena XXII
(toca a campanhia – Falstaff abre a porta - Ofélia desce e recebe Shylock)

Ofélia – Seja bem vindo! Sou Ofélia, virtual futura noiva do Principe Hamlet.
Shylock – Muito obrigado! Sou Shylock, Ministro das Finanças da Alemanha.
Ofélia – Apesar de eu estar muito ocupada com os preparativos para o meu casamento, farei questão de contribuir para essa reunião de Cúpola. Até já paguei peitinhos para Cleópatra.
Shylock – Fico contente! Da próxima vez ela a levará para um bacanal.
Ofélia – Sugeriu-me passar a lua de mel em seu palácio no Cairo...
Shylock – É lá mesmo.

     Cena XXIII
(Falstaff serve vinho)

Hamlet – Meu caro, Shylock! Seja bem vindo!
Shylock – Obrigado! Parbéns pelas futuras nupcias!
Hamlet – Como sabe, esse não é o motivo para a reunião de cúpola.
Shylock – Evidente. De minha parte, quero apenas executar o contrato.
Ofélia – Fiz um contrato com um buffet e serviremos leitão a pururuca.
Hamlet – Meu caro, cada fato à idéia é tão avesso, que os planos ficam sempre insatisfeitos.
Ofélia – Eu ficaria satisfeita com peito peru ao invés de joelho de porco.
Shylock – Sei que irá perguntar porque prefiro a carne de Antonio a receber 800 bilhões de Euros. Mas isso eu não respondo!
Hamlet – O que expressamos com palavras já está morto em nossos corações. Sempre há algo de desprezível na fala.
Ofélia – Se tivessem me avisado de sua predileção por churrasquinho, teria providenciado pelo menos espetinhos de coração.
Shylock – Digamos que é capricho. Serve assim?
Hamlet – Não sei o valor de uma libra de carne, mas parece exagero.
Ofélia – E por que testículo de galo e não coxa de frango?
Shylock – Se houvesse um rato em minha casa e me agradasse dar 10 mil Euros para liquidá-lo... Serve essa resposta?
Hamlet – Os caprichos são mestres das paixões e rotineiramente levam o ódio à paixão.
Shylock – Não há razão que explique bem por que este não gosta de olhar pra porco, aquele não suportar um bichaninho, o outro a gaita, mas acabam, todos, passando por vergonhas e ofendendo os outros porque algo os ofendeu. Assim, não dou razão nem darei porque eu quero o pinto de Antonio.
Ofélia – (histérica – aos berros) Não importa por que você o quer, não importa se é ódio, não importa se é capricho, não importa se é ojeriza, não importa se você é judeu ou cristão, não importa se você conjurou o diabo pra comer carne de porco, não importa se está no seu contrato, não importa se é uma garantia, não importa as leis, não importa se quer pagar caro por um pinto. Voce vai ficar aqui e engolir esse pinto goela abaixo, porque hoje é o dia do meu casamento e você não vai estragar tudo! Entendeu, her Kaiser? (sai correndo).
Shylock – Eu sabia que ela era virgem.
Hamlet – Fofoqueiros!

     Act II
     Cena I

(Entram Cleópatra, Rosalinda e Rosalina – Falstaff serve vinho)

Cleópatra – Shylock, como vai?
Shylock – Não tão bem como as alegres damas, mas está tudo bem!
Rosalinda – Querido, nada como uma taça de vinho para nos alegrar!
Shylock – Hamlet, por que as mulheres em grupo parecem caçadoras cegas num riacho cheio de piranhas?
Rosalina – Por que quando vocês homens nos ferem, nós sangramos, e quando nos divertem, nós rimos de vocês! Prazer em vê-lo.
Hamlet – Pensava que ia ser fácil, Shylock? Elas ainda dominarão o mundo!
Cleópatra – Querido, não precisamos de vocês dois aqui agora. Vão se juntar à fraternidade dos Mosqueteiros. Nós três temos assuntos importantes para tratar. Voltem em dez minutos.
Shylock – Você não deveria pensar desde quando elas nos dominam?
Hamlet – Ainda temos nossas espadas. Vamos! Um por todos, todos por um!
(saem Hamlet e Shylock)

     Cena II
(Falstaff serve vinho)

Cleópatra – Rosalina, precisamos montar uma estratégia para que Iago tenha como dominar Shylock durante a reunião de Cúpola.
Rosalina – Mas eu estarei ocupada. Preciso pressionar Biron para que leve a França o pagamento garantido.
Rosalinda – Confie em nós, minha linda. Cleópatra e eu seremos satélites de Iago e Shylock. Você terá de isolar Antonio.
Cleópatra – Acaricie as nádegas de Antonio, se for preciso, mas deixe-o longe de Shylock e Iago.
Rosalina – Terei de ser pródiga em mentiras, porque já não consigo mais esconder o fascínio que Biron me provoca.
Rosalinda – Minta, minha linda! A mentira é uma opção para  a felicidade.
Cleópatra – Terá Biron a seus pés. Eu lhe prometo.

     Cena III
(Ofélia desce as escadas desesperada)

Ofélia – Me ajudem! Vocês precisam me ajudar a assar aquele porco!
Rosalina – Calma, Ofélia! Não precisa se afobar.
Ofélia – Eu já disse que se ele tentar atrapalhar meu casamento, eu aço aquele joelho de porco!
Cleópatra – Você não teria coragem de matá-lo, teria, querida?
Ofélia (bem calma) – Teria.
Rosalina – Vamos para os seus aposentos e lá conversamos melhor.
Ofélia – Vocês vão ter de me ajudar, não vão?
Rosalinda – Claro, minha linda! Estamos aqui para isso.
(saem todas)
     Cena IV
(Entram Hamlet, Iago, Biron, Antonio e Shylock - Falstaff serve vinho)

Shylock – Senhores, se eu entendi bem, querem que eu troque o pinto de Antonio pelo Fundo de Cleópatra. É isso?
Biron – Sim! Desse modo, a França pode perdoar a dívida da Espanha com aporte do Banco Mundial.
Hamlet – E o Reino Unido capitaliza os bancos com que dinheiro, se está atolado de títulos podres?
Iago – Elegemos uma nova moeda de referência para a Zona e deixamos as dívidas, os salários, as aposentadorias e todos os encargos sociais em Euro com forte desvalorização.
Hamlet – E qual governo seria louco suficiente para bancar essa zona?
Iago – O Reino da Dinamarca.
Antonio – O Reino Unido também teria seus títulos em Euro desvalorizados, Hamlet.
Biron – E o crédito da França e da Itália não seria assim tão grande, Hamlet.
Hamlet – Vocês fariam um seguro com lastro em ouro para garantir as transações da zona?
Shylock – Eu não aceito.
Antonio – Vai gostar de pinto assim no inferno!
Iago – Cavalheiros, por favor, preciso ficar a sós com Shylock. E Biron, por favor, redija um contrato nos termos aventados para que possamos conversar preto no branco.
Biron – Com todo meu esforço, e acredito que Hamlet e Antonio em muito me auxiliarão.
Iago – Obrigado! Sabia que podia contar com você, meu caro.
(saem os três)
     Cena V
(Falstaff prepara a mesa do jantar)

Shylock – Sou-lhe todo ouvidos! Mas receio que será inútil.
Iago – Meu caro, antes dessa reunião de Cúpola, pedi a um advogado muito prestigiado que analisasse o contrato entre a Alemanha e a Itália em que consta a malfadada garantia dada por Antonio.
Shylock – Com certeza ele lhe falou sobre o princípio do Pacta sunt servanda.
Iago – Sim, é um brocardo latino que significa "os pactos devem ser respeitados" ou mesmo "os acordos devem ser cumpridos".
Shylock – Então não temos o que discutir.
Iago – Ao contrário, meu caro. Ainda que levemos em consideração esse princípio, o contrato fala em, aspas, “uma libra de carne”, que é muito diferente de pinto. Daí, não pode V. Sª exigir o pinto de Antonio.
Shylock – Então exigirei suas nádegas.
Iago – Pela abundância de Antonio, é certo que as nádegas estariam acima de uma libra.
Shylock – Então, exigirei um peitinho. Uma libra e nada mais. Medida por medida.
Iago – Também não será possível. O nosso ilustre advogado também sublinhou que o que V. Sª cobra é a multa contratual, ou seja, se não pagar o empréstimo, arcaria também com o pagamento de uma libra de carne.
Shylock – O defensor só piorou a situação de Antonio.
Iago – Com certeza, não. Não há como exigir o acessório, se o principal não for demandado ou se for pago. Com a desvalorização da dívida em Euro, a Itália pode fazer com facilidade um depósito consignado.
Shylock – Mas o Euro ainda não foi desvalorizado e eu posso executar o contrato na totalidade, ou seja, principal e pinto.
Iago – O contrato é nulo, meu caro. A execução do contrato é a execução da vida de Antonio, pois, se cortar o pinto dele, Antonio sangrará até a morte. ou seja, um bem maior, que é a vida, deve prevalecer sobre o desejo seja de qual natureza for, Ponto final.
Shylock – Você é tão diabólico que não ouso retrucar, mas hei de ter uma compensação justa.
Iago – Não haverá no céu raios além daqueles que fazem os trovões!

     Cena VI
(entram Cleópatra, Rosalinda e Rosalina – Falstaff serve vinho)

Cleópatra – Tenho um pressentimento que nós estamos prestes a viver grandes emoções, meu querido Iago (toma-o pelo braço).
Shylock – Não emprestaria um real para apostas em contrário!
Rosalinda – Meu amado, Shylock! Como gostais de pilherias!
Iago – Senhoras, nós propusemos a criação de uma nova moeda para as transações da Zona e a Alemanha perdoará a dívida da Itália.
Rosalina – E a coroa espanhola, como pagará a França?
Iago – Não pagará. Os títulos da dívida pública da França em poder da Inglaterra se diluíram no tempo pela desvalorização contínua do Euro...
Cleópatra – E como o Reino Unido não pertence ao bloco, pode flutuar a Libra Esterlina para compensar eventuais perdas.
Rosalina - Hoje, parece que em toda parte reina uma farsa necessária à felicidade ou seria muito barulho por nada?
Iago – Ganhamos em dobro quando olhamos para o relógio e sabemos o adiantar das horas e para o espelho o quanto a marca dos anos nos deixa felizes.
Shylock – Gostaria de ser tão ligeiro no pensamento para nesse contentamento achar um consenso.
Cleópatra – Meu querido, bem está o que acaba bem. Então, salve o pinto de Antonio!
Rosalinda – Salve o pinto de Antonio!
Rosalinda - Salve o pinto de Antonio!
Rosalina - Salve o pinto de Antonio!
Iago - Salve o pinto de Antonio!
Shylock – Merda!
(todos aplaudem)

     Cena VII
(entram Hamlet, Biron e Antonio – Falstaff coloca taças vazias sobre a mesa posta)

Hamlet (empunhando um documento na mão direita erguida e fingindo que os aplausos são uma homenagem a sua entrada triunfal) – Obrigado! Obrigado! Obrigado! Hoje fazemos história nessa zona. A moeda de transações da Europa será o Danish.
Todos – Danish! Danish! Danish!
Hamlet – A Dinamarca finalmente entrará para a Zona do Euro, que passará a ser chamada de Zona do Danish ou Danish Zona.
Todos – Danish zona! Danish zona! Danish zona! Danish zona!
Cleópatra – Proponho um brinde a nossa Danish zona!
Todos - Um brinde a nossa Danish zona!
Hamlet – Firmemos nosso pacto para a nossa Danish zona! Assinem-no senhoras e senhores.
Rosalinda - Um brinde a nossa Danish zona!
Todos - um brinde a nossa Danish zona!
Hamlet – Tomemos nossos assentos à mesa para compormos essa Reunião de Cúpola e declaro a palavra aberta.

     Cena VIII
(abre-se um sarau, ao invés de discursos, declamam-se poemas ou diatribes, a começar por Biron e Rosalina)
Biron -  “Ethos não é demônio;
Caráter não é destino;
Eros é estritamente acidental.
Rosalina -  Intenções são escravas da memória;
São fortes, mas tem vida transitória;
Qual fruto verde que se ostenta, duro,
E há de cair quando fruto maduro,
Biron -  É fatal que esqueçamos de nos dar
O que nós mesmos temos de pagar:
Rosalina -  Aquilo que juramos na paixão,
Finda a mesma, perde a ocasião.
Biron-   A violência das dores e alegrias
Destrói as suas próprias energias.
Onde há prazer, a dor põe seu lamento,
Se a magoa ri, chora o contentamento.
Rosalina -  O mundo não é firme, e é bem freqüente
O próprio amor mudar constantemente,
Biron -  E ainda esta para ficar provado
Se o fado guia o amor, ou este o fado.

Todos – (aplaudem)

     Cena IX

Rosalinda -  Depois de um tempo você aprende
a sutil diferença entre segurar uma mão e acorrentar uma alma
e você aprende que amar não significa apoiar-se
e companhia não quer sempre dizer segurança
e você começa a aprender que beijos não são contratos
e presentes não são promessas
e você começa a aceitar suas derrotas
com sua cabeça erguida e seus olhos adiante
com a graça de mulher, não a tristeza de uma criança
e você aprende a construir todas as estradas hoje
porque o terreno de amanhã é demasiado incerto para planos
e futuros têm o hábito de cair no meio do vôo
Depois de um tempo você aprende
que até mesmo a luz do sol queima
se você a tiver demais
então você planta seu próprio jardim e enfeita sua própria alma
ao invés de esperar que alguém lhe traga flores
E você aprende que você realmente pode resistir
você realmente é forte
você realmente tem valor
e você aprende
com cada adeus, você aprende.
Todos – (aplaudem)

    Cena X

Iago – Será que os homens não podem ser gerados
sem que as mulheres façam a metade do trabalho?
Bastardos somos todos!
E o homem venerável, a quem chamava de pai,
andava eu sei lá eu por onde, na hora que fui gravado.
Um cunhador com suas ferramentas fez-me falso.
No entanto, minha mãe aparentava ser a Diana da época,
Assim como minha esposa era sem par.
Oh, vingança! Vingança!
O meu legítimo prazer ela impediu!
E tantas vezes implorou-me abstinência
com pudor tão róseo cuja afável aparência
aqueceria até o velho Saturno.
Cheguei a achá-la pura como a neve poupada pelo sol.
Oh! Que diabo!
Oh! se eu pudesse achar em mim a parte mulher
Porque não há no homem propensão ao vício, eu garanto
que não venha da parte da mulher; seja a mentira
sabei, é da mulher; a adulação, veio dela, a traição,
dela também. Lascívia e pensamentos sujos, dela;
A vingança foi dela, e a ambição, cobiça, ostentação,
toda a arrogância, os desejos ardentes, a calúnia, a
volubilidade, mesmo todos os defeitos que um homem poderá
nomear, ou melhor, que só o inferno conhece, dela vêm, parte
ou inteiros. Melhor dizendo, todos, pois nem mesmo ao vício
as mulheres são constantes, a toda hora estão trocando um vício
velho por um novo. Vou escrever contra elas, detestá-las, e também
maldizê-las! Pensando melhor, não há capacidade maior de ódio
que orar para que lhes façam a vontade. Nem o diabo vai castigá-las
melhor.
Todos – (aplaudem)
     Cena XI
Antonio -  De nós mesmos depende sermos deste ou daquele feitio.
  O nosso corpo é uma horta de que nosso arbítrio é o cultivador.
De forma que, se quisermos plantar nele urtigas ou semear alface,
carpir a terra ou mondar tomilho, cultivar nele um só gênero de ervas, ou espécies variadas, torná-lo estéril pelo nosso ócio ou fertilizá-lo com o nosso suor, é em nos mesmos, na nossa própria vontade que estão o alvitre e o poder para tanto.
Se na balança da nossa vida não houvesse o prato da razão para equilibrar o outro prato das paixões, nossos humores e a baixeza dos nossos instintos nos levariam as mais absurdas conseqüências.
Mas temos a razão para esfriar nossas paixões impetuosas, as incitações carnais, os apetites desenfreados. O homem não é mais nem menos que um enxerto em gemas de sementes.
Todos -  (aplaudem)
     Cena XII

Hamlet  –
Que é o homem, se sua máxima ocupação e o bem maior não passam de comer e dormir? Um simples bruto. Decerto, quem nos criou com a faculdade que ao passado e ao futuro nos transporta, não nos deu a razão, para que fique inútil. Seja esquecimento bestial, ou mesmo escrúpulo covarde que me leva a pensar demais nas coisas - pensamento com um quarto de bom senso e três de covardia - ignoro a causa de ficar a dizer: “devo fazê-lo?", se para tal me sobram meios, força, causa e disposição. Exemplos grandes como a terra me exortam: este exército de tal poder e numero, chefiado por um príncipe moço e delicado, cuja coragem a ambição divina faz exaltar, levando-o a defrontar-se com os fatos invisíveis e a sua parte mortal e pouco firme a por em risco contra o que ousa a fortuna, o acaso e a morte, por uma casca de ovo. Grande não é empenhar-se em grandes causas; grande é quem luta até por uma palha, quando a honra está em jogo. Vejo, envergonhado, vinte mil homens próximos da morte, que por simples capricho da vaidade caminham para o túmulo tal como se fossem para o leito, e lutam pela conquista de um terreno em que não cabem, e sepulcro pequeno para esconder sequer os que ai tombarem.

Todos – (aplaudem)
     Cena XIII
Shylock –
Nem todos neste mundo podem ser patrões, nem todos os patrões do mundo devem ser bem servidos. Hás de ver muito servidor submisso que, encantado com a própria servidão, consome a vida como os asnos servem ao dono: a troco de forragem. Uma vez velhos, dá-se-lhes baixa. Chicote em tais honestos serviçais! Outros há que mascaram as maneiras e as caras do devotamento e, ao simular bem servir aos amos, servem ao seu próprio bem. Quanto mais bem fornidos as expensas dos patrões, mais lhes fingem vassalagem. Dobram-se em reverencias diante destes; mas é a si mesmo que eles prestam culto. Esta é minha gente! Esses, sim, têm caráter! E, em verdade, te digo.... eu sou um desses!

Todos -  (aplaudem)
     Cena XIV

Cleópatra -  Não é em um ano, nem será em dois
que a gente pode conhecer um homem
  todos eles são só estômagos
  e nós não passamos de simples alimento
  se estão famintos, com avidez nos comem
  em nós mesmas vomitam se estão fartos.
  Por que nos chamam de prostitutas
  Se no prazer natural da luxúria ou em
  leitos exaustos e tediosos parimos uma
legião de idiotas concebidos em meio de um cochilo?

Todos -  (aplaudem)
     Cena XV
(Ofélia desce as escadas vestida de noiva e transmuta-se em Julieta – Falstaff  serve vinho nas taças vazias sobre a mesa)

Ofélia –  Duas estrelas do céu, as mais formosas
  a ter qualquer ocupação, aos teus lhos
  pediram que que brilhasse nas esferas
  até que ela voltassem. Que se dera se
  ficassem no alto os olhos teus e na sua
  cabeça os dois luzeiros? Suas faces nitentes
  deixariam corridas as estrelas, como o dia
  faz com a luz das candeias, e seus olhos
  tamanha luz no céu espalhariam, que os
  pássaros, despertos, cantariam.

Hamlet – (ao centro do palco, recebe Ofélia, oferece-lhe uma taça de vinho e bebem em braços entrelaçados, beijam-se. e caem mortos. Em sequência, Biron  e Rosalina, Cleópatra e Rosalinda, Iago e Antonio, Shylock e Falstaff repetem esse ritual. Apenas Falstaff não morre, porque não bebe o vinho).

Falstaff – Que diabos! (olha em volta) Todos mortos! Ainda bem que não bebi nem beijei os lábios desse homem, por causa do pó mortífero! Ele (Iago) pediu para eu colocar veneno nas taças de Rosa não sei o que e de outra pessoa que não entendi o nome. Pra não errar, coloquei veneno em todas as taças. Deus perdoe os que erram! Será que trouxeram muitas moedas em suas bolsas? Danish! Danish! Danish! Ainda bem que não me afogaram no rio para eu morrer. Um corpo opulento como o meu na água bóia, e correria o risco de mais inchar e explodir. Por minha fé, esse moço (Hamlet) de sangue frio não me tem afeição. Nada o faz sorrir; mas isso não admira; foi a primeira vez que o vi beber vinho. Os jovens de temperamento muito sisudo jamais dão coisa que preste; a sobriedade no beber e o excesso de peixe na comida, de tal jeito lhes esfria o sangue, que caem em uma espécie de anemia masculina, só gerando filhas, depois de casados. No mais das vezes são estúpidos e covardes, o que também seríamos, se não nos inflamássemos. Um bom copo de vinho é de duplo efeito; sobe-me ao cérebro, seca-me ali todos os vapores tontos, obtusos e ásperos que o envolvem, deixando-o sagaz, vivo, imaginoso, cheio de formas leves, petulantes e deleitosas, que, entregues à voz, recebem vida da língua e se convertem em excelente espírito. A segunda propriedade do vinho é a de aquecer o sangue, que, por ser naturalmente frio e pesado, deixa o fígado branco e pálido, sinal certo de pusilanimidade e covardia; mas o vinho o aquece e o faz correr do interior para as partes extremas, ilumina o rosto, que, como farol que é, chama às armas a esse pequenino reino denominado homem. E então todos se congregam em torno do seu chefe, o coração, que, aumentado e envaidecido com o cortejo, se torna capaz de qualquer empreendimento de valor. Todo esse valor vem do vinho, a tal ponto que a habilidade no manejo das armas de nada vale sem o xerez, que é o que a põe em movimento. O saber não é mais do que uma mina de ouro guardada por um demônio, que só vale depois que o vinho a explora e a põe em obra e uso. Se eu tivesse mil filhos, o primeiro princípio humano que lhes inculcava, seria absterem-se de bebidas fracas e entregarem-se ao vinho. (pega uma taça de vinho e bebe) Oh, demônios! (cai morto)

     FIM



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