Para todas as mulheres que em algum momento precisaram esconder-se ou alienar-se para sobreviver.
Para todas as mulheres que foram enlouquecidas, desacreditadas ou queimadas por uma sociedade enferma.
`A todas mulheres que choram trancafiadas em masmorras de preconceitos.
`A todas nós que não desistimos de renascer quantas vezes forem necessárias para garantir o legado da vida:
“Um minuto com a mulher do espelho”
- Daniele, como você permitiu que alguém a ferisse a este ponto?
Como você pode acreditar que seu valor era tão diminuto ?
-Simples.
O espelho que eu me olhava diariamente, estava dentro do meu guarda roupas, no mesmo lugar que me escondia quando o mundo me parecia hostil.
-O que aconteceu com aquela menina que um dia carregou um pedaço da mesma essência que a sua?
-Ela morreu.
Eu a sufoquei enquanto a via agonizar pelo tiro da madrasta vida.
-Por que você fez isto?
-Não queria que ela pagasse pelo pecado de arrancar seu coração a sangue frio.
Assim ela descansou no paraíso e não ficou perdida no inferno que a esperava, caso ela fracassasse mais uma vez, não resistindo ao sofrimento.
-Mas você seguiu seu caminho sem remorso?
-Segui destroçada, dilacerada, em carne viva. Mas segui.
Não foi difícil ja que o que vi ela enfrentar me deu forças para enterrá-la com pás de cal.
Ela era frágil mas não temia a morte.
Era delicada mas não sucumbia ao trabalho pesado.
Era alagada pela vergonha mas mantinha a cabeça erguida enquanto seu rosto corava delatando sua falsa falta de solidez.
-Mas eu a escutei conversando com ela há pouco.
Ou você enlouqueceu?
-Eu a ressuscitei porque a escutei chorando.
Eu devia isso a ela.
-Ela lembra do que aconteceu?
-Quase nada. Mas disse que outro dia acordou de um pesadelo chamando por seu amor.
-Então algo ela ainda sabe.
-Talvez sua alma já não sinta aquela dor mas entende que ele se foi.
-Que tragédia !
-Não foi tragédia!
Eu o matei também!
-De onde você tirou essa frieza implacável?
-Do mesmo lugar que me fez permitir que alguém me ferisse “naquele ponto”. Do mesmo lugar que me fez acreditar que meu valor era diminuto.
Daniele de Cassia Rotundo