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Peraltices

Outrora, nós só víamos e escutávamos estouros de bombas no mês de junho, nas festas juninas. De fato, era uma atração para a inocência da garotada que se divertia ao redor da fogueira, saboreando comidas típicas da época ao som dos rojões subindo para o céu, bombas explodindo, “busca pé” perseguindo a gente, “chuva de ouro” com suas cores fascinantes e outros fogos divertidos, balões, músicas juninas e os bailes. A travessura agora a ser relatada, deve ter sido num mês de junho porque, lá no Bairro da Fábrica, algumas pessoas tendo um pequeno comércio em casa, só em junho vendiam explosivos de pólvora e outros produtos pertinentes às festividades juninas.

Como era comum naquela época, livremente os meninos se deslocavam pelas ruas de suas e de outras vilas. Esta história de molecagem era típica do José Polato.

Filho de Antonio e Conceição Polato, irmão da Itália, da Ivone e da Lucia e meu vizinho, o Zé era uma mistura de Pedro Malasartes com Zé Cata Tu..

Sempre se envolvia com peripécias e por causa delas apanhava muito do pai.

Às vezes, depois de termos voltado de algumas aventuras inconseqüentes, naquele lugar maravilhoso dos alcagüetes, de minha casa eu ouvia os gritos do Zé sendo surrado sem piedade pelo pai. Quando não eram os conhecidos, era a mãe que o delatava e ele apanhava com correia de máquina de costura. O Antonio Polato bateu muito, bateu demais no filho que não era tão malcriado para merecer tanto castigo.

 

Numa noite, estivemos perambulando pela região, não me lembro se estávamos, como sempre, armados com nossos estilingues e pedras no bolso. Depois de termos estado na pracinha da portaria, ou, pracinha do escritório da fábrica de papel, vindo pelo Bairro Chique, defronte à escola, descemos pelo estreito caminho que fazia ligação com a Vila Pereira para depois dela chegarmos em nossa casas. Porém, ao passarmos pela primeira casa da Vila Pereira, assim como primeira era conhecida, nos paramos porque tivemos uma idéia brilhante. Na parte de cima da casa morava o casal Augusto e Jandira Casaroto, o filho Txinim (Adilsom) e a irmã. Na parte de baixo morava o Lagarto (Orlando Marchesini) casado com Pierina Gabriel.

Naquela noite silenciosa como lá, eram todas, eu e o Zé “riscamos” na caixa de fósforos, dois “peido de veia” e os jogamos na área da casa de baixo e lá ficaram eles estalando e saltitando, formando fumaça, ela que pelo cheiro que exalava, deu origem ao nome do brinquedo de pólvora. Saímos correndo ao ruído de porta se abrindo e altas admoestações do Sr. Orlando se ouvindo se misturando com nossas gargalhadas.

 

O que e como era peido de veia? Eram como gotas ou pingos de pólvora eqüidistantes num dos lados de uma tira de papel de mais ou menos três centímetros de largura por uns trinta centímetros de comprimento. Cada gota que não era maior que um centímetro de diâmetro, ao individualmente serem rasgadas da tira e esfregadas numa caixa de fósforos, elas ao se acenderem, no pouco tempo em que se queimavam, fumegantes elas estalavam e saltitavam, deixando no ambiente o odor de pólvora queimada, daí o nome de “peido de veia”. Naquela noite daquela peraltice na Vila Pereira, felizmente como não apanhou do pai, o Zé dormiu como um anjinho, tendo sonhos do Zé Cata Tu para serem realizados na prática do dia seguinte.


Altino Olimpio

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