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10/06/2008
Cemitério do mistério

Cemitério Mistério

Às vezes nosso pensar se parece com um passado sonhar. Caímos nos âmbitos de nossos recônditos e somos inseridos no antigo existir pensado esquecido. Como lembrei, emoldurado por altos ciprestes em ambos os lados, oculto de quem passa só por si mesmo preocupado, escondido na mata o cemitério exclusivo jaz esquecido de sua data sendo um mistério sobre quem estão enterrados ou de quem se trata. Menino naquele nada se apura estive entre aquelas sepulturas envolto em pensamentos sobre aquelas criaturas. Criança ainda na vida com poucos de seus acúmulos, o cemitério esteve a me entristecer por quem ocupou aqueles túmulos. De crianças e adultos eram todos de uma mesma família que estiveram mancomunados numa folia da última refeição que os tinha envenenado. Pai e mãe na comunhão alimentícia entre os filhos distraídos sem apuros e sem saber que aquele último presente seria a morte de seus futuros.

A família veio de fora e de longe para não mais ir embora. Morava no Bairro da Curva por onde passava o rio com águas turvas. O destino trouxe-a para Caieiras onde pessoas pioneiras instalavam máquinas de papel dando fomento ao início da Indústria Melhoramentos no Estado de São Paulo, um empreendimento civil para o bem do Brasil. Na precariedade daquele tempo alguém daquela família para o preparo do sustento construiu uma panela de metal, que, levada ao fogo com o alimento se fez veneno fatal. Será que a reação do veneno se fez enquanto eles estavam despertos protegidos do sereno, iluminados por lampião e entrevendo-se de perto em contorções de dor misturadas com gemidos e desespero pelo temor que logo as mortes seriam suas sortes naquele suplício entre si amparados apenas pelo amor? Ou melhor, estariam de si esquecidos enquanto estavam adormecidos e a morte substituiu suas vidas sem eles terem sofrido?

Esse fato ocorreu por volta do ano mil e novecentos e pela emergência os procedimentos foram à construção de um cemitério provisório por causa da sua urgência. O tempo passou e como provisório ficou. Aqueles restos mortais por ninguém reclamado não tiveram translado para o então posterior cemitério oficial construído no Bairro da Cerâmica do mesmo local e sendo o primeiro daqueles tempos do ainda não município da região de Caieiras. Na minha meninice falava-se que as cruzes artesanais e bonitas daquelas sepulturas, sozinhas se moviam. Naquela meiguice pueril essa sugestão mental parecia mesmo provocar a visão de alguma movimentação. O infantil medo de aparições extrafísicas, sendo insultos esses ajustes de adultos ao inventarem seus embustes, eles foram inferiores a mais forte tentação da empatia póstuma que o silêncio do local exercia. Lá estavam apenas lembranças de gente desconhecida e esquecida como parece querer a vida e dela pouco tiveram aquelas crianças queridas quando um veneno serviu de passagem para suas precoces partidas. Aquele cemitério que o tempo esquecia e a natureza escondia, mais foi conhecido pelos garotos que em todos os recantos vivia na liberdade que existia. As garotas, moças e senhoras daquele outrora do Bairro da Fábrica, sendo mães, avós ou bisavós de agora, e também homens por nunca tê-lo visto, ou só dele terem ouvido falar, esse saber superficial daquele cemitério é isento de curiosidade por seu mistério, este, tido como tal, conforme estivemos a relatar. Em lugar algum se encontram registros e não foram esquivos, pois, naqueles tempos idos não serviam como acervos para arquivos. Então... “Era uma vez”, uma família veio de longe para aqui morar e trabalhar, mas, o destino cruel como sendo um desatino tirou a vida dos pais e dos seus meninos numa tristeza que...

Altino Olympio

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