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03/02/2009
Passado não passado

Passado Não Passado

Caieiras evoluiu muito se considerando e comparando com aqueles tempos do viver simples quando raras pessoas possuíam automóvel. Para entretenimento só existiam os clubes simples da época onde suas principais atrações eram o futebol e os bailes familiares. Hoje, nossos conterrâneos têm mais diversificações para viver como viajar, por exemplo. Alegra os ouvidos ouvirmos notícias sobre conhecidos nossos que viajam para Paris e voltam esfuziantes. Pariscida do Norte é mesmo inesquecível para quem tem a oportunidade de conhecê-la. No passado tivemos excelentes jogadores de futebol e vamos aqui resgatar a lembrança de um deles. Vivaldi Nani, além de bom goleiro era um artista nato. No primeiro quadro ou time principal o bom goleiro era o Valdir Manz e o Vivaldi lhe dizia que algum dia iria lhe “roubar” sua posição de destaque. Isso aconteceu com a ajuda do destino, pois, o Valdir sofreu um acidente e quebrou um dos braços. Substituindo-o, o Vivaldi passou a ser a atração dos domingos. Já à noitinha e depois do futebol o clube às vezes promovia um bailinho ao som de vitrola. Uma vez, não se sabia por que, o bailinho não se iniciava. Não se sabia se era um defeito técnico no aparelho de som ou outro motivo, pois, os diretores do clube lá presentes desconversavam sobre o porquê da demora até que, soube-se do cancelamento do bailinho. Dentre outras pessoas estava eu com minha namorada gaucha e suas irmãs, já se preparando para deixar o local quando, no lado oposto donde estávamos e depois do palco onde era a entrada da sala da diretoria do clube, surgiu o Vivaldi. Sozinho onde estava e numa descontração louvável e mesmo invejável, ele surpreendentemente investiu-se de mímicas e com sons imitativos de instrumentos musicais e não parou: Txi que tan, tank txi que tan, xic tan tan tan (bateria), ta ta taratatá taaaaaaaa (pistão), tororó ró ró ró ró róoooooooooooooooo (sax safone). É tank xi que tan, tank txi que tan, xic tan tan tan, txi que tan tan tan. Tchi que tun rigubatchi, tchi que tun rigubatchi (pandeiro). Foram vários instrumentos imitados, acrescentados com gestos e contorções faciais que tais instrumentos ao serem tocados provocam. Minha namorada entre espanto e admiração não parava de rir, como também eu e todos os presentes que desistiram de se retirar do recinto. Foi um show, um espetáculo inesperado. Parabéns ao Vivaldi por aquela demonstração e transferência de alegria contagiosa de menino/homem ou homem/menino. Aqueles tempos de adultos crianças que fomos deixaram saudades. Nesta recordação o Vivaldi Nani esteve no palco abrindo para nós as cortinas que ocultam os meninos que deixamos de ser. Às vezes eles reaparecem e não se reconhecem no como somos hoje. Era uma vez, o apito da fábrica ficava despercebido e sob forte sol as borboletas com seus coloridos ficavam eles inibidos ao competirem na notoriedade com os içás tanajurando pelo espaço na época quando logo depois são morridos. Descalços, nossos pés se enfeitavam com a poeira da rua, o suor devido ao calor, ele brotava por sob os cabelos, se represava na testa e dividindo-se em córregos escorria pela face. Ao longe o canto da cigarra era um rugido parecendo alertar “meninos se me esforço tanto quando canto é porque estes teus tempos com o tempo serão esquecidos pelos teus pensamentos em qualquer canto”. O dia transpondo a fronteira entre a claridade e a escuridão se tornava noite. Juntos, meninos e meninas em seus folguedos eram os alaridos sonoros da rua antes dela se tornar deserta para ser abraçada pelo silêncio que se prolongava pela madrugada. No leito, com o fechar dos olhos, a inocência pueril se confundia com a serenidade noturna como se fosse um ardil. Assim era outrora antes de sermos despertados pela aurora.



Altino Olympio

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