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Adeus dia de Finados

No sábado, feriado do dia de finados, dia dois de novembro de 2019 estive sentindo uma vontade de voltar ao passado. O dia de sol forte estava muito quente. Me “peguei” pensando em ir ao cemitério de Caieiras, pois, lá está repleto de gente do passado (risos). Mas, com o “eu vou ou eu não vou” a indecisão se fez presente. Isso resultou numa séria discussão interior. O “a favor” para que eu fosse ao cemitério discutindo com o “contra” a que eu fosse: Ele deve ir sim disse o a favor, mas o contra disse que não. Mas, coitado, ele precisa sair e se distrair. Mentira! Disse o do contra, ele sempre diz que não precisa disso. Mas parece que hoje ele está nostálgico. Talvez precise mesmo ver pessoas que faz tempo que ele não vê. Não acredito nisso, pois, ele gosta de se isolar.

Depois de ouvir meus eus interiores se manifestarem eu resolvi atender o “a favor” e contrariar o “do contra” e pensando que, se o passeio não for bom, depois terei que aguentar o inconformismo do “contra” com a minha decisão de sair de casa: Bem feito, bem feito, que o passeio não foi bom, eu falei para você ficar em casa que seria melhor. Bem feito por ter sido desobediente. Entretanto, lá pelas quatorze horas cheguei ao local do cemitério, mas, antes de adentrá-lo entrei no velório e como havia alguns corpos sendo velados, significava que lá na cozinha haveria café e chá de erva cidreira de graça para tomar mesmo que eu não fosse conhecido daqueles falecidos que estavam aguardando suas idas para os seus fins.

Saindo do velório e adentrando pelo portão do cemitério, lentamente caminhei por aquela rua central tendo sepulturas de ambos os lados. Caminhando e pensando “mas que deserto está este cemitério, antigamente em dia de finados ele ficava superlotado de conhecidos e não vi nenhum até agora”. No fim da rua em suave aclive que termina naquela igrejinha onde era a última despedida para os falecidos, estava tendo uma missa com poucos participantes presentes. Nenhum conhecido eu vi lá. Olhando ao redor notei que o cemitério estava florido, muitos vasos de flores sobre as sepulturas. Deduzi que muitas pessoas da região já tinham vindo para o cemitério, talvez na parte da manhã ou no dia anterior. Devido ao calor retornei pelo mesmo caminho, sai pelo portão do cemitério e fui me refrescar na sombra naquele páteo da entrada do velório.

E lá fiquei por muito tempo vendo quem passava para visitar seus mortos. Até então nenhum conhecido havia visto. Mas, logo apareceu a conhecida Cida Costa com sua filha e seu genro. Viram-me e vieram conversar comigo. Que bom! A seguir a Floriza Marim com a sua sobrinha Vera, filha do saudoso Riciere Marim também vieram conversar comigo e a Floriza logo foi dizendo: Faz tempo que não o vejo. Conversamos um pouco e depois as duas foram conversar com uma senhora conhecida da família dos Pansutes que ostenta a simpatia de seus oitenta e nove anos de idade bem vividos. Eu também tive o prazer de conversar com ela por uns instantes. Ah, também vi a irmã do “Cebola” (Mario de Souza) que saindo do velório estava acompanhando um enterro. Então, resumindo, foram apenas sete pessoas conhecidas que eu vi no dia de finados.

Aquela voz interior que surge do nada e que às vezes dirige meus passos me disse para ir embora, pois, nada mais tinha a fazer naquele lugar que outrora fora tão apreciado para encontros surpresas com pessoas queridas. Passando das dezesseis horas resolvi me retirar para voltar para casa. Mas ainda era tão cedo e então decidi me sentar num banco sob a sombra das árvores que ficam no passeio defronte a Câmara dos Vereadores da avenida de entrada para o Centro de Caieiras. Naqueles momentos sob a sombra das árvores eu não queria mais encontrar conhecidos. Eles iriam interferir com os meus pensamentos que estavam regressando aos dias de finados do passado. Quando se está só parece que se revivem as cenas do passado que a memória traz ao pensamento com mais intensidade.

E assim o passado me veio trazendo lembranças que eu gostaria de poder fotografá-las para mostrá-las a outras pessoas. Dia de finados! Como era importante. A maquininha, o trenzinho da Indústria Melhoramentos vinha lotado do Bairro da Fábrica transportando muita gente com suas flores para serem depositadas nos túmulos de seus entes queridos que já tinham deixado este mundo. Naqueles dias de finados parecia que todos os habitantes do lugar se encontravam lá no cemitério. Ele ficava lotado com tanta gente indo pra cá e pra lá. Aquela rua principal do cemitério citada anteriormente até ficava congestionada facilitando trombadas entre uns e outros. Lá muitos conhecidos ou parentes se encontravam, paravam pra conversarem e assim dificultavam aqueles que queriam passar por eles.

Muitos jovens, inclusive, também compareciam, não tanto pelos parentes idos daqui, mas porque no cemitério em dias de finados eles tinham maior facilidade para “tirar linha” com as garotas e vice-versa. Tirar linha era a troca de olhares entre um rapaz e uma garota provocando entre ambos o interesse de iniciar um namoro. Depois, com o tempo a passar, a palavra “paquerar” veio para substituir o “tirar linha” que era mais inocente ou ingênuo.

Antigamente o dia de finados até era esperado, diferente destes dias em que muitas pessoas ficam indiferentes sobre essa data de quando seus mortos possam ser lembrados. “Já não mais se faz dias de finados como se fazia antigamente” (risos). A dispersão das pessoas nesse dia é notória. Já de volta pra casa e pensando em quando será minha partida daqui deste mundo fabuloso me veio uma boa solução para ela, para a minha partida: Eu não quero ser enterrado, eu não quero ser cremado! Eu quero ser embalsamado. Sendo assim, as pessoas que sentirem minha falta, e sei que serão muitas e incontáveis, quando elas sentirem saudades que venham me visitar onde eu estiver colocado (risos).

 

Altino Olimpio 



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