Suplemento de magnésio: o que funciona e o que é mito, segundo as evidências
O magnésio tornou-se um dos suplementos mais populares, mas suas reais funções fisiológicas são frequentemente confundidas com benefícios clínicos que, em pessoas saudáveis, não estão bem comprovados.
Por Maria Izquierdo-Pulido, Isabella Parilli Moser, Maria Fernanda Zeron Rugerio
Suplemento de magnésio: o que funciona e o que é mito, segundo as evidências — Foto: Adobe Stock
O magnésio se tornou um dos suplementos mais populares atualmente. Os motivos para tomá-lo são variados: dormir melhor, reduzir o estresse, prevenir cãibras, ter mais energia ou evitar deficiências. As redes sociais ampliaram sua popularidade, e muitas pessoas tomam magnésio com a ideia de que é uma solução simples para se sentirem melhor.
O problema é que funções fisiológicas reais costumam ser confundidas com benefícios clínicos da suplementação com magnésio que, em pessoas saudáveis, não estão suficientemente comprovados. Mas o que a ciência realmente diz sobre o assunto?
Suplementos não compensam dieta inadequada
O magnésio é um mineral essencial. Ele participa de centenas de reações enzimáticas e é necessário para o metabolismo energético, o funcionamento muscular e nervoso, a síntese de proteínas, a manutenção dos ossos e o equilíbrio eletrolítico. Uma ingestão insuficiente pode estar associada a fadiga, fraqueza ou distúrbios neuromusculares.
Mas uma coisa é o magnésio ser essencial, e outra bem diferente é que sua suplementação seja útil para todos. Na nutrição, mais nem sempre significa melhor. Na verdade, o benefício de um suplemento, seja de vitaminas ou minerais, fica claro quando há uma deficiência. Por outro lado, o efeito é muito menos evidente quando as necessidades alimentares já estão sendo atendidas.
As melhores fontes alimentares de magnésio são grãos integrais, vegetais de folhas verdes, leguminosas, nozes, sementes e cacau puro. Para muitas pessoas, incorporar mais desses alimentos na sua dieta faria mais sentido do que tomar uma cápsula. Um suplemento não melhora uma alimentação inadequada: ele apenas a substitui de forma ilusória. Confiar em um comprimido para compensar o que não comemos é nos enganarmos — e é uma ideia que, infelizmente, é muito lucrativa para quem a comercializa.
Na União Europeia (UE), existem alegações de saúde autorizadas para o magnésio: que contribui para reduzir o cansaço, para o metabolismo energético normal e para o funcionamento normal dos músculos e nervos. Essas alegações são fisiologicamente verdadeiras, mas não significam que um suplemento de magnésio atue como um energizante ou relaxante universal. Elas simplesmente indicam que o corpo precisa desse mineral para funcionar adequadamente.
As promessas versus o que diz a ciência
Também se popularizou a ideia de que cada problema requer uma forma específica de magnésio: citrato para a constipação, bisglicinato para o sono, malato para a fadiga, treonato para o cérebro.
É verdade que diferentes sais variam em termos de absorção e tolerância digestiva, mas provar que um sal específico é clinicamente superior para o sono ou para reduzir o estresse em pessoas saudáveis é outra questão. Esse “livro de receitas de sais” é hoje mais uma estratégia de marketing do que uma conclusão científica.
A ciência relativiza cada uma dessas alegações. O sono é uma das mais populares: o magnésio está envolvido nos processos de excitabilidade e relaxamento neuromuscular, o que lhe confere uma base biológica plausível.
As evidências clínicas disso, no entanto, são bastante limitadas: um ensaio clínico recente em adultos com baixa qualidade do sono aponta para uma redução modesta no tempo necessário para adormecer.
Assim, são necessários mais estudos clínicos, com amostras maiores e medidas objetivas do sono antes que se possa afirmar com segurança que o magnésio melhora a qualidade do sono. De fato, a União Europeia não aprovou nenhuma alegação de saúde que relacione o magnésio à melhora do sono.
Uma situação semelhante se aplica às cãibras musculares. As revisões disponíveis não mostram um benefício claro em pessoas com cãibras regulares, e a ideia de que “o magnésio elimina as cãibras” é simplista demais.
Quando se trata de energia, o corpo não funciona como um tanque que pode ser abastecido indefinidamente: se suas necessidades já estiverem atendidas, adicionar mais magnésio não produz mais energia. O benefício esperado é corrigir uma deficiência, não transformar um mineral em um estimulante.
Mineral não é inofensivo em qualquer quantidade
O magnésio que obtemos dos alimentos raramente causa problemas, mas suplementos em altas doses, por outro lado, podem provocar diarreia, náusea e dor abdominal.
Em pessoas com doença renal ou que tomam certos medicamentos, o risco é maior. Além disso, ele pode interferir com alguns antibióticos e medicamentos para osteoporose se tomado ao mesmo tempo.
Tudo isso leva a uma reflexão mais ampla. Em uma população saudável, a maioria dos suplementos alimentares não é necessária se a alimentação for suficiente, completa e equilibrada. Alguns podem ser úteis em situações específicas — deficiências diagnosticadas, necessidades aumentadas ou indicações clínicas —, mas isso não justifica seu uso generalizado.
O problema não é apenas o produto, mas também a mensagem que o acompanha. A ideia de que um comprimido pode compensar a falta de sono, o estresse crônico ou hábitos pouco saudáveis é muito atraente do ponto de vista comercial, mas atende mais aos interesses do mercado do que às reais necessidades de saúde pública. O magnésio não é uma moda sem fundamento: é um nutriente essencial com funções muito importantes.
A pergunta não deveria ser “qual suplemento está faltando para mim?”, mas sim “eu realmente preciso disso ou simplesmente me venderam uma boa ideia?”. A melhor recomendação continua sendo aquela que parece “menos atraente”, mas também é a mais sensata: primeiro, a alimentação; e somente quando necessário, a suplementação devidamente prescrita por um profissional de saúde.
Maria Izquierdo-Pulido recebe financiamento para pesquisa do Ministério da Ciência, Inovação e Universidades do governo da Espanha.
Isabella Parilli Moser recebe financiamento para pesquisa do Ministério da Ciência, Inovação e Universidades do governo da Espanha.
Maria Fernanda Zeron Rugerio recebe financiamento para pesquisa do Ministério da Ciência, Inovação e Universidades do governo da Espanha.